quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Covilhã - Cartas Régias relacionadas com povoações e locais do seu Termo III

Cartas Régias de doação, confirmação, aforamento, escambo ou jurisdição relacionadas com povoações e locais do termo da Covilhã 

  O espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias continua a ser um manancial de conhecimento. Estas cartas sugerem-nos o poder régio no termo da Covilhã e recordam-nos terras ou lugares que ainda hoje permanecem com os mesmos nomes. Sentimos necessidade de fazer ligação a muito do que já publicámos sobre o termo, os tombos ou a onomástica. Relembramos ainda o que apresentámos em Notícias Soltas XI e XII sobre o Dominguiso.(a)

Primitivamente o concelho da Covilhã alargava-se do Côa até ao Tejo: esta era a estrutura geral da carta de foral de D. Sancho I. Com a colonização interna, com a fundação e reedificação de aldeias e vilas, com o arroteamento das terras, as primitivas grandes áreas incultas cederam à indústria do homem. Pela sua vastidão, pela sua posição geográfica - o concelho da Covilhã foi uma espécie de alfobre de novos concelhos, ou então sofreu decepações várias para se alargarem e formarem concelhos cujas sedes se encontravam fora dos seus limites. Entre os primeiros citaremos S. Vicente, Castelo Novo, Ródão, Castelo Branco, Oleiros, Sortelha, etc.; e entre os segundos Penamacor. Todas estas modificações nas fronteiras e no interior dos concelhos se deram nos primeiros reinados - por isso aí devemos ir buscar as fontes curiosíssimas das lutas entre os concelhos que se formavam de novo e os concelhos velhos de que aqueles se desagregavam…” (b)


Mapa de Portugal e os limites prováveis do Alfoz
 da Covilhã ao tempo do Foral de D. Sancho I c)

Concelhos do distrito de Castelo Branco

Concelho da Covilhã, onde podemos localizar Dominguiso, Peso, Vale Formoso (Arrefega), Paul

Concelho do Fundão, onde podemos localizar Alcongosta

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Alfonsus Dei gratia Portugalie Rex (Afonso II) Praetori Covilliane et Alcaldis, et Concilio, et Universis de Regno suo, ad quos Littere iste pervenerĩt Salutem. Sciatis quod ego mando, et firmiter concedo, ut illi homines, qui morantur in beira de Oquaya (1) habent suas domos, et suas vineas, et suas haereditates, quas jam rumperunt in pace, et nullus sit in meo Regno, qui propter hoc andeat eis malefacere. Et mando firmiter et defendo ut de cetro non rumpant magis de haereditatibus, neque taliant nostrum sautum. Et si magis rupuerint de haereditatibus, aut damnaverĩt meum sautum pectabunt mihi centum morabitinos, et erunt mihi inimici, et propter hoc do eis istam meam cartam apertam, ut defendãt super illam et fuit facta in Coviliana, prima die Novembris. Rege mandante per judices. Era millesima ducentesima quinquagesima secunda. (1214)

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Carta de foro dũa herdade que chamã forno telheiro

Don Denis pela graça de Deus Rey de Portugal e do Algarve. A quantos esta carta virẽ faço saber que eu dou e outorgo Afforo pera todo senpre a Domĵgos martiz e a ssa molher Margarida martiz e a Domĵgos negro e a ssa molher tareyia dominguiz A herdade que chamã forno telheiro cõ nas outras que partẽ pelo camỹo da leuada e desi ao Ribeiro da Alcõgosta (2) peru parte o alcãpar e desi como sse vay ao mõte da hũa parte e da outra saluo as herdades que iazẽ no dito comeyos que ia son dadas aos dalcõgosta. E dou A eles as ditas herdades assi feitas come por fazer com sas entradas e saidas e pertẽeças. E eles sobrigarõ A laurar e A ffazer prol en elas pera o dito Souto so tal preito e condiçõ que eles e os que deles forẽ dẽ aos procuradores do dito Souto damha merçee que e na Ribeira de Caỹa o quinto do pan e do vĩo e do lĩo e dos alhos e das Cebolas que fforẽ arreste. E por dia de Natal dous capões e xx ouos de fforo aos procuradores ou Aaqueles que ouuesẽ de veer o dito souto. E nõ deuẽ hy al assemear senõ estas cousas de que deuẽ a ffazer o dito foro fazẽdo eles ou aqueles que deles forẽ a mĵ ou aos meus suçessores o dito foro e laurãdo as ditas herdades como ditho he auerẽ eles ou aqueles que deles forẽ as ditas herdades pera todo ssenpre guardando eles as ditas cõdições E dou lhis as ditas herdades pera uẽder e pera dõar e pera dar cõ no dito foro e com nas ditas condições. E eles ou aqueles que deles forẽ nõ nas deuẽ Auẽder nẽ a dar nẽ a dõar A ordĵ nẽ a creligo nẽ a Caualeiro nẽ a dona nẽ A nehũa outra pessõa Religiosa senõ Aa tal pessõa leiga que faça ende A mĵ ou aos meus suçessores o dito foro. E por esto seer firme e nõ uijr poys en duuida dei ende esta mha carta aos sobreditos Data en Coinbra xx dias de Setẽbro el Rey o mãdou pelo custodio ueedor do dito Souto per seu mãdado. Martim perez A ffez.Era Mª CCCª xLª vj. Anos. (1308)


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Carta de foro dũu herdamento da mercee do Souto de Couilhaã

Don Denis pela graça de deus Rey de Portugal e do Algarue. A quantos esta carta uirẽ faço saber que eu dou e outorgo Afforo pera todo senpre hũu herdamento do Souto da mha mercee (3) que he termho de Couilhaã na beira do Caya (1) A ffernãdo Affonso e a ssa molher Maria ioanes e a Domĵgos Johanes dos casaaes e a ssa molher Maria perez o qual herdamento parte pelo caminho da leuada como parte com Mariha negra com no herdamento que foy de ffernã martiz e Açima do mõte Agua uertente. E dou a eles o dito herdamento assi fecto como por fazer cõ sas entradas saidas e pertẽeças. E eles se obrigarõ a laurar e a fazer prol ẽ ele pera o dito Souto so tal condiçõ que eles e os que deles forem dẽ aos procuradores do dito Souto da mha mercee que he na Ribeira do Cajha o quinto do pã e do uĩo e do lĩho e dos Alhos e das cebolas que forẽ Arestre E por dia de Natal dous Capões e xx ouos de foro aos procuradores ou Aaqueles que ouuerẽ de veer o dito Souto. E nõ deuẽ hy Al assemear senõ estas cousas de que deuẽ A ffazer o dito foro. E ffazendo eles ou Aqueles que deles forẽ a mĵ ou aos meus suçessores o dito foro e laurãdo o dito herdamento como dito he auerẽ eles ou aqueles que deles forẽ o dito herdamento pera todo senpre guardando eles as ditas Condições E dou lhis o dito herdamento pera uẽder e pera dar e pera dõar com o dito foro e com nas ditas condições E eles ou Aqueles que deles forẽ nõ no deuẽ Auẽder nẽ a dõar A ordĵ nẽ a creligo nẽ a escudeiro nẽ a caualeiro nẽ a dona nẽ A nẽhũa outra pessõa Relligiossa nẽ põderossa senõ a tall pessoa leiga que faça ende A mĵ ou Aos meus sucessores o dito foro E por esto seer firme e nõ uijr depois ẽ duuida dei ende esta mha carta aos sobre ditos. Data en lixbõa xx dias dabril el Rey o mandou pelo custodio ueedor do dito Souto per seu mandado. Lourenço domingujz a ffez Era Mª CCCª e XLª vij Anos (1309)

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Carta de foro do herdamento que chamã do souto da mercee termho de Couilhaã

Don Denis pela graça de deus Rey de portugal e do Algarue A quantos esta carta virẽ faço saber que eu dou e outorgo Afforo pera todo senpre hũu herdamento do Souto da mha merçee (3) que he en termho de Couilhaã na beira do Caya (1) A Gonçalo perez da leuada e a ssa molher Maria migẽes e A domĵgos negro e A ssa molher Tareyia dominguiz o qual herdamento chamã Recouso cõmo parte cõ na Eira que foy de Gonçaluynho sainte do ffundõ açima como vay ferir no cume feito e por fazer cõ na lameira do Souto dou a eles o dito herdamento cõ ssas entradas e saidas e pertẽeças. E eles se obrigarõ A laurar e A ffazer prol ẽ el pera o dito Souto so tal condiçõ que eles e os que deles forẽ dẽ aos procuradores do dito Souto da mha mercee que he na beira de Caya o ssesto de pã e de vĩo e de linho e dos Alhos e das Cebolas que fforẽ arreste. E por dia de Natal dous Capões e xx ouos de fforo aos procuradores ou Aaqueles que ouuerẽ de veer o dito Souto. E nõ deuẽ hy Al assemẽar senõ estas cousas de ssuso ditas que deuẽ a fazer o dito foro. E ffazendo eles ou Aqueles que deles forẽ a mĵ ou aos meus suçessores o dito foro e laurãdo o dito herdamento como dito he. A uerẽ eles ou Aqueles que deles forẽ o dito herdamento pera todo senpre guardãdo eles as ditas condições E dou lhy o dito herdamento pera uẽder e pera dar e pera dõar cõ no dito foro e cõ nas ditas condições E eles ou aqueles que deles forẽ nõ no deuẽ auẽder nẽ a dar nẽ a dõar a ordĵ nẽ a creligo nẽ a caualeiro nẽ a dona nẽ a nẽhũa outra pessõa Religiossa senõ a tal pesõa leiga que faça ende a mĵ ou aos meus suçessores o dito foro E por esto seer firme e nẽ uijr depoys ẽ duuida dei ende esta mha carta aos sobreditos. Data en lixbõa xx dias dabril. el Rey o mãdo pelo custodio veedor do dito Souto per seu mãdado vaasco steuez a ffez. Era Mª CCCª e XLª e sete Anos. (1309)


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Carta de foro dos mo͂yos (moinhos) do Couto com o herdamento dantrãbalas aguas que e do Souto da mercee.

Don Denis pela graça de deus Rey de Portugal e do Algarue A quantos esta carta virẽ faço saber que eu dou e outorgo Afforo pera todo senpre os mo͂yos do couto com no herdamento dantranbalas aguas que uẽe do Alcambar que he do Souto da mha merçee en termho de Couilhãa na beira do Cajha A Domĵgos negro e a ssa molher Tareyia dominguiz o qual herdamento parte cõ no dito Souto e cõ Carreira pubriga que uay pera o dito Souto e dou A eles os ditos mo͂yos e herdamento assi fecto cõmo por fazer com sas entradas e saidas e pertẽeças E eles se obrigarõ a laurar e a ffazer prol nos ditos mo͂yos e herdamento pera o dito Souto so tal condiçõ que eles e os que deles forẽ dẽ aos procuradores do dito souto da mha merçee que he na Ribeira do Cajha Cinquo quarros de pam çenteo ẽ paz e ẽ saluo ata sancta Maria da Gosto. E este pan deuẽ a dar cada Ano polos mo͂yos e pelo dito herdamento aos procuradores ou aaqueles que ouuerẽ auuer o dito Souto. E dãdo eles ou aqueles que deles forẽ a mĵ ou A meus successores o dito pan como dito he Auerẽ eles ou aqueles que deles forẽ os ditos mo͂yos e herdamento pera todo senpre guardãdo eles as ditas condições E dou lhis os ditos mo͂yos e herdamento pera uẽder e pera dõar com no dito foro e cõ nas ditas condições. E eles ou aqueles que deles forẽ nõ nos deuẽ Auẽder nẽ a dar nẽ a dõar a ordĵ nẽ a creligo nẽ a caualeiro nẽ a dona nẽ a nẽhũa outra pessõa Religiosa senõ Aa tal pesõa leiga que faça ende a mĵ ou aos meus suçessores o dito foro. E por esto seer çerto e firme e não uijr depois en duuida dei ende esta mha carta Aos sobreditos. Data em lixbõa xxij dias dabril El Rey o mãdou pelo custodio veedor do dito Souto per seu mãdado. Vasco steuez a ffez Era Mª CCC e quareẽta e sete Anos. (1309)

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Aa vylla de couylhãa trellado em ppubrica forma de hũua carta per que El Rey mandou que aja os maynhos (maninhos) de caya etc.

Saybam todos como eu Domỹgue anes tabeliom de nosso senhor El Rey em Couylhãa perdante as testemunhas que adiamte som scritas vy e liy hũa carta aberta de nosso senhor El Rey e seellada de seu seelo verdadeiro pendẽte Da qual carta o theor a tal he.
Dom denis pella graça de deus Rey de portugal e do algarue / A uos juizes e conçelho de Couylhãa saude / Do que my enuyastes dizer sobre fecto dos maynhos de caya que dizedes que som vossos e que uollos mãdara eu filhar e dalos aa merçee dos pobres por que achey que sam esses moynhos uossos de direito / Porẽ uos mãdo que os aJades assy como os ante avyades cõ aqueles outros homẽes que en eles ham direito. Dante em lixboa xv dias de abril / El Rey o mãdou per Pero paaez que he em logo de sobrejuiz / francisque anes a fez era de myl iij ͨ  xxbij annos. (1289)
E a dita carta mostrada e perleuda / domỹguos perez juiz da dita villa / de couylhãa pedio a mĵ dito tabeliom / o trelado della testemunhas / Vicẽte caçõ / Domỹgo nouo / Pero de sousa / Antonyo annes E eu tabeliom de suso dito que este trelado da dita cara scripuy e em elle este meu synal fizy feito foy xiiij dias de setẽbro Era de myl iij ͨ  Rbij annos. (1309)


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Carta de fforo do herdamento do fforno telheiro e do herdamento da estrada

Dom Denjs pela graça de deus Rey de portugal e do Algarve a quantos esta carta uirẽ faço saber que eu dou Afforo pera todo senpre a Steuã steuẽz e a sua molher moradores no ffundo da beira caya e a todos seus sussessores o meu herdamento do forno telheiro e o herdamento da estrada de soa carreira da estrada que uẽ da alcongosta (2) que som do souto da merçee Os quaes herdamentos  partẽ pelos soutos e pelas carreiras que uan ao ffundõ e desi pelas aguas e ende como parte pelas outras aguas que uẽe aos mõyos do souto per tal preito e so tal condiçõ  que o dito Steuã steuez e sa molher e todos seus sussessores dẽ ende a mĵ e a todos meus  suçessores ẽ cada hũu Ano pera o dito souto da mercee o quinto do pam e do vĩho e do linho e dos Alhos e das Cebolas que deus der nos ditos herdamentos e hũu Capõ e dez ouos e hũu Alqueire de trjgo. E outrossi mi deuẽ dar do fforno telheiro que esta ẽ esse meu herdamento ẽ cada hũu Ano cada que cozer vijnte soldos e hũu Capõ. E eles nõ deuẽ uẽder nẽ dar nẽ doar nẽ ẽ alhear Os ditos herdamentos e possissões nẽ parte deles a Caualeiro nẽ a dona nẽ a escudeiro nem A creligo nẽ a ordĵ nẽ a outra pessõa que seia Religiosa nẽ poderosa senõ aa tal pesõa que faça ende a mĵ e a todos meus sussessores os meus foros conpridamente ẽ cada hũu Ano como dito he. En testemũyo desto lhy dei ende esta mha carta. Data  en Sanctaren vijnte e dous  dias de Nouẽbro El Rey o mandou per frey martĩo seu esmoler Joham dominguiz de portel a fez. Era Mª CCCª e Lª vij Anos. (1319)  frei martim Auyo.

Notas dos editores:
a)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2017/04/covilha-noticias-soltas-xii.html
b)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/12/covilha-o-alfoz-ou-o-termo-desde-o.html
c) O mapa foi retirado pelos editores de "Do Foral à Covilhã do século XII", Fundão, 1988.
1) A propósito de "Ribeira do Cajha", em Memórias Paroquiais (1758), o prior José Fernandes Álvares de Ourondo, diz: "Dum lado corre o Rio Zêzere e do outro uma Ribeira chamada Caya, pelo poente; e nasce na Serra d'Estrela junto a uns penhascos e mete-se no rio Zêzere junto do povo. Peixes de toda a qualidade em especial barbos e bogas; pescaria livre. Junto do rio milho, feijam, souto e oliveiras... O prior Francisco Xavier d'Almeida informa que a ribeira do Caia que passa pelo Paul, nasce na Bouça, na freguesia de Santa Maria da Covilhã. O nome de Caia em esta ribeira é muito antigo e sabido de poucos. O arqueólogo Jorge de Alarcão diz-nos que o mais antigo documento referente a Ocaia é a carta de povoamento dada a S. Vicente da Beira em 1195. Ocreza, rio que nasce na Gardunha parece derivar de Ocaia. Maria da Graça Vicente, em 2013, afirma que na serra da Gardunha, designada de Ocaia, havia várias ribeiras chamadas de Caia.
O Censo ou Numeramento de 1496, na parte referente à Covilhã: (http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/11/covilha-os-forais-e-populacao-nos_24.htm),refere a Ribeira do Caya.  
2) Ribeira de Alcongosta, ou de Alcambar, ou do Passo. Alcongosta é uma povoação do concelho do Fundão, na serra da Gardunha.
3) O "Souto da mha mercee" (o souto do Alcambar) fica no actual concelho do Fundão.
4) Os tombos como o “Tombo dos bens foros e propiedades que pertencem ao conçelho da Villa de Couilhã que se fez por mandado do Muy alto e poderoso Rey Dom Phellippe o 2.° de Portugal Nosso Senhor na era de 1615”, também nos permitem conhecer algo mais sobre estes lugares.
(http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/01/covilha-os-tombos-xiv.html)

Fontes - ANTT - Cópia de Documento nº 7, gav. 3, maço 4
ANTT – Chanc. de D. Diniz, livº 4º, fol. 51.
ANTT – Chancelaria de D. Diniz – Livº 4, fls 54.
ANTT - Chancelaria de D. Diniz – Livº 4, fls 53 v.
ANTT – Chanc. de D. Diniz, Livº 4º, fol. 54.
ANTT – Livº 2º da Beira, fol. 280.
ANTT – Chanc. D. Diniz, Livº 4º, fol. 86 vº

As Publicações do Blogue:

Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/11/covilha-lista-dos-sentenciados-na.html

As publicações no blogue sobre este assunto:


http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2017/08/covilha-cartas-regias-relacionadas-com.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2017/06/covilha-cartas-regias-relacionadas-com.html

domingo, 1 de outubro de 2017

Covilhã - Frei Heitor Pinto X

O nosso blogue vive do espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias, que continuamos a explorar e a divulgar. Sempre soubemos o interesse do investigador por Frei Heitor Pinto, que deu origem em 1952 à publicação de "Fr. Heitor Pinto (Novas Achegas para a sua Biografia)", a  da sua vasta obra. 

  Aquando das comemorações do IV centenário da morte do frade jerónimo, que se realizaram na Covilhã a 2 de Dezembro de 1984, empenhou-se totalmente para que a figura de Frei Heitor fosse mais divulgada.
A propósito de monografias covilhanenses, Luiz Fernando Carvalho Dias lembrou Frei Heitor Pinto:
“Não ainda em monografia, mas como simples descrição, registo a primeira imagem da Covilhã em forma literária. Cabe ao nosso Frei Heitor Pinto, o escritor português mais divulgado e com mais edições no século XVI. Trata-se de uma imagem enternecida, como que uma saudade de peregrino a adivinhar exílios, muito embora a abundância dos adjectivos desmereça da evocação:

 “ … Inexpugnável por fortes e altos muros, situada num lugar alto e desabafado e de singular vista, entre duas frescas e perenais ribeiras, com a infinidade de frias e excelentes fontes e cercada de deleitosos e frutíferos arvoredos.  “ (1)

 Estamos a publicar informações sobre Frei Heitor Pinto. Baseamo-nos em reflexões do investigador, em fotografias e textos da Exposição de 1984 e na obra sobre Frei Heitor Pinto.
    Acompanhemos a obra “Fr. Heitor Pinto (Novas achegas para a sua biografia)” de Luiz Fernando Carvalho Dias:

[...]
A prisão, o exílio e a morte

            Em 1579, quando começou a entrever-se a crise da sucessão, ensinava a Sagrada Escritura, em Coimbra, Fr. Heitor Pinto. Os longos anos de meditação deram-lhe tal segurança na exegese bíblica que suas obras invadiram os centros da especialidade, onde algumas foram editadas. Viera, pois, o magistério universitário, iniciado em 1576 (1), coroar uma intensa vida de estudo quando começava já a frutificar nos leitores dos seus livros tanto saber cuidadosamente acumulado.
               Mal adivinhava o frade, no sossego apetecido de Coimbra, como o pleito que enegrecia os horizontes ia sangrá-lo, nas suas afeições: Filipe 2º, protector da sua candidatura em Salamanca (2); o Cardeal D. Henrique a quem consagrara os Comentários a Isaías e o nomeara reformador dos Cónegos de S. João Evangelista; o duque de Bragança a quem dedicara a segunda parte da Ima­gem da Vida Cristã; o ensino universitário porque aspirara muitos anos; a residência em Portugal, cujas saudades sentira, viajando por terras estranhas.
               E era o mesmo amor da Pátria, que não considerava um verdadeiro bem, a sair-lhe ao caminho, com proble­mas de consciência: todavia as dúvidas redimiram-se no sacrifício da liberdade que se sublima com a morte, nas terras escarpadas de Toledo, exílio triste para quem amou as árvores, as flores e a suave doçura da pátria portuguesa.
               A sua têmpera de beirão não o deixou hesitar como tantos, entre o dever e a comodidade; conduziu-o ao campo do infeliz Prior do Crato onde flutuava uma bandeira quase vencida.
               Esta afeição à causa de D. António se era raciocí­nio de jurista a defender direitos, reacção natural à absorção de Castela, em português culto do séc. XVI a quem o humanismo não crestara o instinto da indepen­dência perante o perigo, umas vezes doce, outras vio­lento, mas sempre vivo do espanholismo unionista, fé de patriota reagindo contra a dominação de Rei estra­nho - também era laço de camaradagem de estudos em Coimbra, pois o bastardo e frei Heitor foram contem­porâneos (3), e talvez gratidão de antigo pupilo do Infante D. Luís (4).
               Por isso a sua posição não demora a definir-se; agrupa-se com os lentes que recebem D. António, em 1579 (5), muito embora não deva contar-se entre os doutores do seu direito (6), como insinua, sem base, a «Memoria dos estudos em que se criaram os Monges de S. Jerónimo» (7); Filipe exclui-o expressamente do perdão, concedido em Tomar, em 18 de Abril de 1581 (8); figura na lista dos partidários de D. António a que este se confessa devedor de mercês, depois de Rei (9); e a sua morte, com suspeitas de veneno, serve de argumento, contra a tirania filipina, em carta do Prior do Crato à Santidade de Gregório XIII (10).
                   A sua resistência a Castela está, pois, largamente documentada; o mesmo não acontece com os efeitos dessa resistência, ou seja as circunstâncias da sua prisão e desterro, como actuou nele o segundo perdão de Filipe II, outorgado, em Lisboa, a 10 de Setembro de 1582 (11), e com a data da sua morte.
               Fr. Francisco de los Santos na Historia de la Orden de S. Geronimo (12), que serviu de fonte a Barbosa Machado (13), no cap. 69, liv. 3º dá-nos uma resenha da vida do monge português. Depois dum elogio ras­gado às suas virtudes e ao mérito das suas letras, exclama:

«Comunicóle el Prudentissimo Rey Filipe segundo en Lisboa truxoselo consigo a madrid quando vino de tomar prossession de Portu­gal ...»

               A seguir diz que entrou na corte e então foi quando lhe disseram que já estava no coração de Castela, ao que ele respondeu que era verdade mas Castela não estava no seu coração.
               O autor da Biblioteca Lusitana enaltece a fidelidade de Fr. Heitor aos príncipes portugueses e ao filho do lnfante D. Luís, e, na peugada do castelhano, acres­centa:

... «e querendo Filipe o Prudente livrar-se de hum tão forte antagonista o levou em sua compa­nhia para Madrid, quando voltava de Portugal com o pretexto honorífico de seu consultor em os negócios mais graves. Ao entrar naquela corte disse com apostólica liberdade: El-Rei Filipe bem me poderá meter em Castela, mas Castela em mim he impossível...» (14)

                   A notícia da prisão consta da Memória manuscrita, intitulada Miscelânea curiosa de sucessos vários (15), de autor anónimo. cujos pais e avós serviram os Reis D. João 3º e D. Sebastião, escrita em 1671-72:

«... foi levado preso a Castela, entregue à guarda de soldados, insolentes e atrevidos, os quais pelo caminho lhe fizeram grandíssimas molestias, e injúrias; e em Castela o meteram dentro duma rigorosa prisão, na qual morreu com grandes suspeitas de veneno. Este grave varão era grande português e bem o mostrou, quando indo pra Castela, entrando preso em Badajoz, um dos soldados pelo mortificar, lhe disse estas palavras: para padre mio ya entramos en Castilla, ao que o bom do velho lhe respondeu: eu entrarei em Castela, mas Castela nunca há-de entrar em mim...»

               Altera esta versão as anteriores e suas similares e aproxima-se mais da verdade.
               Mas voltemos a Fr. Francisco de los Santos. Na sua obra há uma referência a Fr. Heitor que pas­sou desapercebida a Barbosa Machado, por não constar do índice ideográfico, quando ajuda a esclarecer a biografia do monje de Belém. Depois de dese­nhar o quadro da resistência dos hieronimitas por­tugueses, que afinal se desenrola desde 1580 a 1640 (16), como aliás a dos franciscanos, bernardos (17), crúzios (18) e outros, conta que a agitação se sucede sem estar presente Fr. Heitor Pinto (19).
                   Santos abandonou aqui, como se verifica, o tom panegírico que utilizara ao enaltecer o seu confrade e o levara a esconder a verdade, para agora deixar transparecer, nas entrelinhas, que Pinto centralizava a resis­tência anti-castelhana dentro da Ordem, não só pelo incontestável prestígio intelectual mas pelas suas altas virtudes.
               Compreende-se: o «Demónio do Meio Dia» ao manejar as ordens religiosas como instrumento de tirania, odiava este e outros frades por recusarem dobrar a cerviz à sua vontade omnipotente. Não hesi­tava castigá-los:

«Hasta con pena de muerte que se ejecutaba sin aparato y con tenebroso sigilo, arrojandolos al rio de noche» (20)

                   Sempre os tiranos, gratos aos aduladores, se enraiveceram com as personalidades fortes que se recusaram tomar o turíbulo e queimar-lhes incenso.
               Era assim a medo na monarquia «da ciência certa e do poder absoluto» de Filipe 2.º, quando os métodos repressivos estavam ainda na infância e eram pálido arremedo dos sistemas científicos das polícias políticas e dos tribunais especiais das repúblicas democráticas, totalitárias e progressivas, filhas directas ou indirectas da Revolução Francesa.
               Repugnava pois aceitar que Fr. Heitor como ensi­navam Santos e Barbosa Machado, saísse, para Espanha, com a capa doirada de conselheiro, em negócios graves.
               Os documentos de Simancas, trazidos agora à 1uz e constituídos pelas minutas das cartas do secretário ­Gabriel Çayas, revistos e corrigidos por Filipe 2º, encarregam-se de desfazer a lenda.
               Preso, em Abril de 1581, na Comarca de Coimbra, deve ter recolhido ao Mosteiro de S. Marcos (21) e aí permanecido em rigorosa clausura até Setembro, mês em que foi levado para Castela; transportou-o o corregedor à fronteira da Beira e entregou-o a D. Jerónimo de Fuentes, seu colega de Ciudad Rodrigo.
               Ia proibido de falar ou tratar com pessoa alguma e de receber cartas; acompanhava-o outro exilado, sacer­dote como ele, o seu confrade e antigo condiscípulo na Universidade de Coimbra Fr. André de Condeixa (22).
                   De Ciudad Rodrigo dirigiram-se a Segóvia, onde Fr. André recolheu ao Mosteiro de N. S.ª del Panal, seguindo daí Fr. Heitor, acompanhado dos esbirros, para Toledo onde ficou encarcerado no Mosteiro de N. S.ª de la Sisla.
               Temia-se que os dois pobres monges fugissem e estabelecessem contactos com o Conde de Vimioso!...
               Mas vamos aos documentos que falam por si.

I



               Al general de los Hier.mos
               R.do y devoto padre, Haviendo paresido que conve­nia a mi servicio y al bien y sosiego deste Reyno sacar del, y passar al de Castilla, algunos religiosos y entre ellos tres de Vra orden llamados fray Hector Pinto, fray Andres, fray fran.co de Olivença (23) os lo he querido avisar por esta y encargar os mucho, que haciendo mirado las casas donde podian estar me embiassendes mandatos para los Priores dellas en que les ordeneis q los reciban y tengan a tan buen recaudo q ni puedan salir dellas ni tener trato ni comunicacion con niguno de fuera hazien­doles empero buen tratamiento en lo que toca a la comida, y cosas necessarias. Que venidos esto recau­dos mandare, que se lleuen a las casas que les señala­redes advertiendo que han de ser de las mas apartadas deste Reyno, y que no han destar juntos sino cada uno en la suya, porque se les quite toda occasion de inteli­gencias. Que a su tiernpo se os avisara de lo que mas se huviere de hazer con cada uno dellos. De Lisboa a ultimo de Julio de 1581.

                          Yo el Rey
               Por man.do de su M.de
                                                                                     Gabriel de Çayas (24)

II

            Al general de los Hierj.mos de Lisboa a 20 de Agosto de 1581.
               Rev.do y devoto padre. Con vuestra carta de cinco del presente se recibieron los mandatos para los Priores de los conventos de la estrella espeja y Cotalva y no ay dubida, sino que (si se tuviera solamente fin a tener apartados Deste Reyno, a fray Hector Pinto, fray andres y fray francisco de Olivença, era bien a proposito, mas porque si se pusiessem en ellos, poderian tener intelli­gencia con el Conde q llaman de Vimioso y aIgunos otros Portugueses que residen en francia fuera de mi gracia y obediencia, me ha parecido que sera mejor que el uno se lleve a ese vro convento, otro al de Sisla de Toledo, y otro al del Panal de Segovia, o, al de Gui­sando, y assi sera menester que embieis otras patentes como las que se os buelven con esta para los Priores de las dos casas, o, para algunas otras desse Reyº de Toledo que a vos  os paresciere seran mas convenientes para los tener, en la forma que se os ha escripto q han de estar, y en esto se remite a vra prudencia. De Lisboa, a 20 de Agosto 1581. Yo el Rey.

                                                                         Por man.do de su Mag.de
                                                                                    Gab. de Çayas (25)

III


               A don Hieronimo de Fuentes corregidor de Ciudad Rodrigo. De Lisboa a xj de 7 bre 1581.
               A xx del passado os mande remitir con el corrigi­dor de Cohimbra la persona de fray miguel de Sanctos Provincial de los Augustinos en este Reyno para que lo embiassedes al monasterio de nra S.rª del Pilar de la Villa de Arenas, agora escrivo y embio a mandar al mismo corregidor que lleve y os entregue a dos Reli­giosos de la orden de Sanct. Hieronymo que ha dias estan alli presos, llamados fray Hector Pinto y Fray Andres de Condeixa, porque a mi servicio y al sosiego deste Reyno conviene sacarlos del y haviendo avisado dello al general de su orden en Castilla, ha señalado a fray Andres el convento de nra S.ª del Panal cerca de Sego­via, y a fray Hector Pinto el de nra S.rª de la Sisla cerca de Toledo, y dado para ello sus patentes dirigidas a los Priores de las dhas casas en que les manda que los reciban y tengan en ellas conforme a la orden que yo les mandasse dar, y assi van con esta dos pliegos para ellos y dentro mis cartas con las patentes y a vos os encargo y mando que luego se se os ayan entregado los dhos frayles, los embieis con persona de recaudo y el acompañamiento q vieredes ser necessario, y orden que el fray Andres de Condeixa se entregue con mi pliego al Prior del dicho Convento del Panal, y que de alli passe con el dho fray Hector Pinto a la Sisla y le entregue al Prior de aquel convento assi mismo con mi pliego, y que de ambos tome certificacion de como quedan en su poder, y advertieis a la persona q vaya con cuydado que ni se le pueden huyr, ni les permita hablar ni escrivir a nadie en el camino, ni recibir cartas ni recaudo de nadie, que con esta yra una cedula mia en q (como vereis) embio a mandar a las Justicias de los pueblos por donde huviere de passar que le den el favor y assistencia que les pediere, y los mantimientos necessarios por sus dineros, y vos le hareis proveer de lo que os paresciere que sera menester para el cumplimiento desta comission del dinero que ay huuiere de gastos de just.ª o, de penas de camara, y auisareisme de como se havra hecho y cumplido lo uno y lo otro. De Lisboa, a xj de 7bre. 1581.
                                                                                    
                                                                                     Yo el Rey
                                                                         Por man.do de su m.de
                                                                               Gab. de Çayas (26)

IV
Uma das minutas corrigidas pela mão de Filipe

            Extracto e tradução.
               Aos corregedores e outras justiças de Castela para que à pessoa que o corregedor de Ciudad Rodrigo D. Hieronimo de Fuentes enviar com Frei Heitor Pinto e Frei André de Condeixa, até Segóvia e Toledo, ambos da ordem de S. Jerónimo, a fim de serem entregues aos priores dos conventos  de N.ª Senhora del Panal, cerca de Segovia e de N.ª S.ª de la Sisla, cerca de Toledo, se lhe dê o favor, ajuda e assistência que for mester, e os  mantimentos, bestas de guia e outras cousas necessárias até aos dois conventos.
               Lisboa. 11 de Setembro de 1581 (27).


               Tradução da carta ao prior de N. Senhora de Sisla de Toledo e teor da parte essencial dela:

Por uma patente que irá com esta do p.e Frei Christovão de Alcala geral de Vossa ordem e outra de Frei Gonçalo Ionalva Presidente e Vigario Geral da mesma ordem nestes meus reinos de Portugal, entendereis as justas causas e considerações porque se leva a esse convento a pessoa de Frei Heitor Pinto Portugues que vos entregara D. Jeronimo de Fuentes, meu corregedor de Ciudad Rodrigo, com pessoa que vos dará esta minha carta. Em cum­primento dela vos encarrego e mando que recebais e tenhais nesse mosteiro ao dito frei Heitor Pinto «a tan bueno recaudo que ni pueda salir dei, ni hablar ni escrivir a nadie ni recibir cartas ni recaudo de nadie, ni tener nigun otro genero de intel­ligencia, trato, comunicacion, ni conversacion con niguno de fuera, dandole empero la comida y cosas necessarias como a los otros Religiosos desse Con­vento, en e1 qual hade estar de la manera y en la forma que se ha dicho, hasta que se os avise de otra cosa, que en ello se servireis. De Lisboa a xj de septiembre 1581. Yo el Rey. Por man.do de su m.e
                                                                      Gab. de Çayas» (28)

*
*   *
                                                                

               Da viagem e entrega de Fr. Heitor Pinto ao Prior de Sisla, devia D. Jerónimo prestar contas, em relató­rio ao secretário do Rei.
               As horas escassas. consagradas em Simancas, à busca e recolha de novos elementos biográficos, não permitiram que encontrássemos, caso ainda exista, a carta de Fuentes, referente a Fr. Heitor e a Fr. André, muito embora tivessemos achado a que dizia respeito a Fr. Miguel dos Santos, datada de 18 de Setembro (29). Ora a leva dos hieromitas é posterior à do Agostiniano. Ficamos assim inibidos de juntar o testemunho que podia esclarecer e documentar a frase (30) que para os séculos guardou, em síntese, a resistência dum grande Portu­guês ao poderio de Castela.
               O sossego aparente do Reino levou Filipe II a outor­gar novo perdão a 10 de Setembro de 1582, decorrido um ano sobre o exílio de Fr. Heitor Pinto, abrangendo muitos dos excluídos do perdão anterior (31).
               Aparentemente Fr. Heitor devia ter beneficiado dele, muito embora se lhe condicionasse a entrada e residên­cia em Portugal:

    «não estarão nê Entrarao nestes meus reynos e sñorios de Portugal Atee mynha mercê, E sem mynha special licença. Auendo resp.tº as causas per q no dito perdão geral foram Exceptuados, ha inquietação e escandolo q causarião Em suas con­gregações, E religiões destes reynos, se a eles por ora tornassê» (32).

Sisla, onde foi sepultado Frei Heitor Pinto (1)

               Desconhecemos os efeitos deste perdão na vida do hieronimita mas presumimos que continuou em Sisla, onde faleceu (33).
               Não foi levantada qualquer objecção séria à sua morte, neste mosteiro.
               Todos os autores que referem o epitáfio da sepul­tura o transmitem com pequenas alterações que lhe não modificam o sentido.
               Fr. Francisco de los Santos continua, neste passo, como noutros a ser a fonte primacial. Do seu «Hic iacet Lusitanus ille» (34) ao «Hic iacet Hector Lusitanus ille» (35) de outros pouca diferença vai.
               Não podemos decidir qual a forma correcta da memó­ria sepucral; o convento, situado na margem esquerda do Tejo, num monte fronteiro a Toledo, transformou-se em casa de campo dos Condes de Arcentales, no século passado e depois sofreu os efeitos da guerra civil espa­nhola (36).
                   Os claustros, se são os primitivos, jazem em ruínas e entulhados, pelo que é impossível descobrir qualquer vestígio de sepulturas.
               No arquivo histórico de Madrid ainda analisámos alguns maços de papéis do mosteiro de Sisla, resultando a busca de todo infrutífera, mas outros, desse fundo, lá ficaram à espera duma nova e mais profícua tentativa que nos ajude a desvendar o segredo da morte de Fr. Heitor Pinto e a precisar a sua data (37).
               Esta fixam-na quase unânimemente em 1584 (38) che­gando o Ano Histórico (39) a determinar o dia 19 de agosto, a que não recusamos, por agora, o nosso voto por presumirmos esta efeméride baseada em qualquer obituá­rio dos Jerónimos portugueses que até hoje escapou à nossa investigação.
               Terminamos por examinar a hipótese levantada pelo cónego Vilela que mereceu tanto respeito ao autor do Dicionário Bibliografico (40).
                   Parece contudo condenada pela contradição que resulta do próprio texto:

«Houve portuguez e um delles foi fr. Heitor Pinto, monge de S. Jeronymo, lente de Escritura da Universidade, respeitavel pelas suas letras, e versadissimo nas linguas orientaes, prezo nas vesperas do Natal de 1587... Fr. Heitor Pinto que Filipe o Prudente quando veio para este reino o levou em sua companhia para a Corte de Madrid a titulo de seu conselheiro ... (41)

                   Filipe seguiu para Espanha a 11 de Fevereiro de 1583 e chegou a Madrid a 29 de Março (42).
               Levando consigo Fr. Heitor Pinto, como poderia este ter sido preso, em 1587 ?

*
                                                        *           *

               Uma verdade convém assinalar.
               Fr. Heitor Pinto, morrendo no exílio, vitima do veneno ou de morte natural, não se submeteu a Filipe 2.° e este não conseguiu meter-lhe Castela no coração.
               Por isso o seu nome ficou no martirológio da Pátria, honra tão alta ou maior do que ilustrar-se como clássico da língua portuguesa, moralista ou teólogo.
               A sua vontade foi mais forte do que o Poder, por­que, resistindo-lhe, o venceu.

Notas:
1. J. de Brito e Silva - Ob, cit.
2. Arquivo da Universidade de Salamanca – Livº 36 de Claus­tros (1567-68), cit. fls.129 e 129 v. Vid. apêndice
3. Mário Brandão - Coimbra e D. António Rei de Portugal. Coimbra,1939 Doc. XXIII, fls.171. O Colegio das Artes, I, 1547-1555. Coimbra, 1924. fls. 478.
4. Arq. Nac. da T. do Tombo - Livro das moradias dos mora­dores do Iffante dom Luis noso  Snõr deste presente ano de 1543, fls. 3: «frey eytor - b c § al» - id. de 1554,fls. 1 v; «frey eytor b c § al» - id. 1542, fls. 3 «frey eyror - b c § al». Quem será est­e frey Eytor» que figura na capela do Infante D. Luis? O Infante foi senhor da Covilhã, por carta de D. João 3º, dada em Coimbra a 5 de Agosto de 1527 (Chanc.ª de João 3º, Liv.º 30, fls. 120).
5. J. de Brito e Silva - Ob. cit.
6. Arquivos de Simancas Leg.º 416 - Os letrados de D. Antó­nio foram «o chançarel-mor, Lourenço Correa, Manuel d’Oliveira, Belchior do Amaral e Heytor Borges».
7. Bol. da Bibl. da Universidade de Coimbra, vol. cit.
8. Arq. Nac. da T. do Tombo - Liv.º 1.° de Leis, fls. 25, Vid. apêndice.
9. D. Antonio Caetano de Sousa - Historia Genealogica da Casa Real. 1.ª Ed., vol. 2º de Provas, fls. 555 e segs. «Rol das pes­soas a que tenho obrigação depoês de Rey (Papel de Senhor D. Anto­nio) ... -os que me seguiraõ sempre em Portugal sendo Rey, que não vieraõ a França: .. (149) Fr. Heitor Pinto ...».
10. Barbosa Machado – Ob. citada fls. 392 e segs.
Memórias dos Estudos .. cf.: «Ille tamen (fala de Fr. Heitor) superborum Militum fidei commissus fuit in Castellam deductus, et in vincula congectus, ubi non sine veresimili veneni suspectione, emedio sublatus est».
11. Arq. Nac. da T. do Tombo - Liv. 1º. de Leys, fls. 30 v. e segs.
12. Fr. Francisco de los Santos - Historia de la Ordem de S. Gerónimo.
13. Barbosa Machado – Ob. cit., fls 392 c segs. Este autor queixa-se da resistência dos Jerónimos lusitanos a fornecerem-lhe noticias para a história desta província da ordem. Parece tratar-se ­de autor probo.
14. Barbosa Machado – Id.
15. B. N. de Lisboa - Secção de Reservados - António Joaquim Moreira, Listas dos Sentenciados ou julgados pelo S.to Ofício, Ms. vol. 1.º fls. 610 v. A pags 613, diz Moreira: «o papel donde tirei esta copia é autografado, está bastante mal tratado; e pondo de parte o desordenado dele, como seu autor confessa ir escrevendo o que lhe ia constando - tem merecimento e dá grande luz à Hist.ª daqueles tempos, motivo porque o junto a esta minha colecção de Senten­ças, 27/11 1863», Esta memória também nos oferece uma notícia da fama de Fr. Heitor Pinto, como orador sagrado, de acordo com o eloquente sermão que figura na Imagem: «Acabando de prégar em Belém, estando ainda no púlpito, entrou a Rainha D. Catarina lhe mandou repetisse o sermão, elle se poz a prégar de novo sobre o mesmo Evangelho sem nunca repetir palavra alguma das que tinha dito».
16. Fr. Francisco de los Santos – Ob. cit., fls. 30 e 31, fls. 44 a 72;
Memorias de Fr. Juan de San Geronimo, in Coleccion de Documentos ineditos para la Historia de España, vol. 7.º, fls. 379.
17. A crítica tentou ultimamente absolver a historiografia alcoba­cense, pretendendo descobrir nas suas lendas e falsificaçõess documen­tais, uma forma de resistência aos Filipes. Esta interpretação, para subsistir, carecia de provar: a) que a deturpação da história era admissivel sempre que houvesse fins nacionais a atingir, máxima que conduziria a Maquiavel; b) que o processo de deturpação, usado pela escola de Alcobaça, não começara ante­riormente a 1580; lembremos que Fr. Heitor Pinto, nos comentários a Daniel, (Coimbra, ed. de António Mariz, 1579), se refere ao milagre de Ourique, para não citarmos outros escritores anteriores; c) que a deturpação se resumiu a material útil ou utilizável na resistência e que, cessada a causa, se procurou anular o efeito, limpando a história dos falsos mitos introduzidos.
Embora a hipótese seja sedutora não podemos esquecer que a mesma táctica foi utilizada para tecer louvores à Ordem de Cister, o que parece contrariar também a tentativa absolutória.
Alcobaça deixou fermentar dentro dos seus muros uma resis­tência activa, como as demais ordens religiosas; essa resistência assume ainda no séc. XVII aspectos graves que levam à prisão, entre outros, de Fr. Dionísio, inculcado filho do Prior do Crato, (Vid. Bibl. d'Ajuda. Col. «Governo de Portugal»,correspondência de Filipe 3º, de Espanha e 2° de Portugal, para o Bispo D. Pedro de Castilho). Não se precisa para encarecer o patriotismo do seus monges revo­gar a sentença dos falsários, muito embora se reconheça que as sen­tenças, em história, nunca transitam em julgado.
18. Em 29 de Setembro de 1574 tomou o hábito, em S.tª Cruz de Coimbra, Fr. Christovam de Christo, natural de Seia, filho de Afonso Botelho e de Violante de larquam; foi cabeça de bando, em tumultos, no convento, contra D. Acursio e foi desterrado para Castela, por Felipe, onde faleceu - Vid. Liv. 90 de S.ta Cruz de Coimbra, fls. 23 v. do Arq. N. da Torre do Tombo.
19. Fr. Francisco de los Santos - Ob. cit, 4.ª parte, pág. 48.
20. Lafuente - Historia General de España. P. 3, L.º 2º, cap. XVI.
21. Fr. Heitor Pinto viveu no Mosteiro de S. Marcos alguns anos; lá o foram buscar para professor da Universidade como escreveu nos Comentarios a Nahum, na dedicatória a D. Jorge da  Silva, ­datada a 4 dos Idos de Março de 1577: «Quid tibi debentur opera mea: maxime cum ea literis mandaverim in tuo diui Marci monasterio: unde evocatus sum ab hac insigni Conimbricensi  academia ad sacram scripturam explanandam» Conimbricae. Ex officina Antonij Mariz, Archipographi et Bibliopoli Vniversitatis. Anno 1579.
22. Mário Brandão - O Colegio das Artes, I, 1547-1555. Coim­bra, 1924, fls. 478.
23. Este monge professou, em Belém, a 9 de Dezembro de 1543, sendo prior Fr. Afonso de Coimbra. Liv.º de Profissões já cf. fls. 9.
24. Arq. de Simancas - Estado, Leg.º n.º 426.
25. Id.
26. Id.
27. Id.
28. Id.
29. Id.
30. Barbosa Machado – Ob. cit.
31. Arq. Nac. da T. do Tombo – Liv.º 1.° de Leis, fls. 30 v. e segs.
32. Id.
33. Fr. Francisco de los Santos - Ob. cit.
34. Id. e Relação da Insigne e Real Casa de Santa Maria de Belem, etc., B. N. Lisboa, Secção de Reservados. F. G. ms. 8872, fls. 75 e segs.
35. Barbosa Machado - Ob. cit., Memorias dos Estudos, etc., Bol. da Bib. da Univ. de Coimbra, vols. cits.
36. Visitámos Sisla, em Abril de 1951.
37. Arquivo Histórico de Madrid - Sisla, legs, 7081-7090. Vi os Leg.7081-83.
38. M.s. registado por António Joaquim Moreira, pág. 611. Ob.ª cf. Barbosa Machado, ob. cit. Inocêncio Francisco da Silva - Ob. cit., fls. 175-176, vol. 3.º
39. «Ano Histórico» cf. por Inocêncio F. da Silva, ob. cit., fls. 1 e 176, vol. 3.º
40. Inocêncio F. da Silva - Ob. Cit., fls. 175 e 176. vol. 3º
41. Luis Duarte Villela da Silva – Observações Críticas sobre alguns artigos Do Ensaio Estatistico do reino de Portugal e Algarves, publicado em Paris, por Adriano Balbi ... Lisboa. 1828, fls. 29-30.
42. Memorias de Fr. Juan de San Geronimo - In: «Coleccion de Docs. Ineditos para la Historia de España», vol. 7.
Notas dos editores 1) Luiz Fernando Carvalho Dias visitou Sisla em 1970, altura em que o convento e o palácio já se encontravam em péssimo estado de conservação.2) Os documentos fotografados encontravam-se no Arquivo Nacional de Espanha, Simancas e estiveram  na Exposição de 1984, na Covilhã.

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