quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Covilhã - Fotografias Actuais III

Propomos que “observem” a ribeira da Goldra em 2011. Segundo Luiz Fernando Carvalho Dias, na sua Descrição de 1943, ela e a ribeira da Carpinteira foram uma “fonte de energia fabril dos lanifícios covilhanenses”.
As fotografias de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias mostram-nos a ribeira da Goldra, ou da Degoldra, ou dos Pisões, a partir da Serra, no sítio do Pisão Novo (fotografia 1), até à ponte gótica Manta em Collo ou Mártir in Colo, passando pela Universidade (antiga Real Fábrica de Panos) e pelo Largo do Rato (fotografia 7). O fabrico de panos de lã incluía várias fases, sendo o do apisoamento, uma das últimas, cujas oficinas se localizavam nas margens das ribeiras, especialmente nesta. Os pisões foram desaparecendo, mas ficou a toponímia; contudo observámos alguns campos de cultivo no Pisão Novo (fotos 2, 3 e 4) e muita água, especialmente no Inverno; fábricas fechadas (4 e 5); uma fábrica ainda a funcionar e a poluir a atmosfera (6), espaços de cultura (8 e 9) e de lazer (10 e 11).

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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Covilhã - Pedro Álvares Cabral e Belmonte I

   Vamos começar a publicar uma conferência relacionada com o V centenário do nascimento de Pedro Álvares Cabral, proferida em 1968 no Brasil, por Luiz Fernando Carvalho Dias, no Rio de Janeiro.        

V Centenário de Pedro Álvares Cabral

            João Roiz de Saa, poeta do Cancioneiro Geral, e Alcaide-mor do Porto, declarando alguns escudos de armas de algumas famílias de Portugal
                        “ Por se levantar a gloria
                        “ das linhagens mui honradas /
                        “ que per obras mui louvadas
                        “ de sy leixarão memorea
                        “ a quem lhes siga as pegadas /
                        “ suas armas devisando
                        “ algumas irei lembrando
                        “ donde lhe a nobreza vem
                        “ porque faça quem a tem
                      “ pola suster / bem obrando;

 sintetizou toda a glória dos Cabrais nesta redondilha simples:

                        “ de purpura celestial
                        sobre prata mui lusente
                        a geração mui valente
                        que delas se diz Cabral,
                        traz sem ouro deferente
                        e para questas aponte
                        seu esforço e lealdade
                        naquela grão liberdade
                        do castelo de Belmonte. “

Castelo de Belmonte
            Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, filho de Fernão Cabral, como refere, entre outros, o ilustre Barros na 1ª Década da Índia, levou consigo, dos seus maiores, à bela terra da Vera Cruz a fidelidade da sua Raça, personificada na Grão liberdade dos alcaides mores do Castelo de Belmonte, na isenção de prestar menagem.
            Singular privilégio esse, de nossos Reis confiarem aos Cabrais, sem garantia, uma das mais importantes fortalezas da Beira, chave defensiva do Vale do Zêzere e bastião duma linha de outras nobres fortalezas, carregadas de história, que desciam da Guarda por Sortelha à Covilhã e do Sabugal a Penamacor, Penha Garcia, Salvaterra e Segura, e do Rosmaninhal até ao Tejo!
            Singular privilégio, repito, numa época de tradição feudal onde os laços de vassalagem eram mais fortes do que os laços da pátria e os grandes senhores se permitiam o direito de eleger suserano mesmo que fosse o estranho Rei.
            A menagem, acto jurídico garantido pela honra, era o laço a unir o suserano ao vassalo.
            Isentar um súbdito de prestar menagem poderia classificar-se de acto de confiança pessoal e normal, mas dispensar toda uma geração de o fazer pressupunha já o reconhecimento público de fortes laços de solidariedade familiar assentes num conceito social de honra, que não admitia quebra.
            Em Portugal só a Casa de Marialva gozava de idêntico privilégio e exclusivo aos castelos de Numão e de Penedono.
            Tratava-se assim de um privilégio familiar e privilégio tão excelente cuja génese merece honrosa evocação nos factos centenários de quem o honrou nas horas altas e sobretudo nas horas aziagas. Sem documento coevo donde conste a isenção, ao contrário do que sucede com os Marialvas cuja carta régia de concessão ainda hoje existe, presumimos que este privilégio tenha advindo aos Cabrais da fidelidade de Álvaro Gil, alcaide - primeiro da Covilhã e depois da Guarda, no tempo de D. Fernando e depois no interregno - honrado escudeiro da Crónica de Fernão Lopes que, contra todos os fidalgos da cidade aliciados pelo bispo D. Afonso Correia, se recusou a entregar a fortaleza a D. João de Castela, marido da princesa Beatriz e genro da “ flor d’ altura “.
            Sabemos, contudo, ter sido Fernão Cabral, pai de Pedro Álvares, o primeiro Cabral a invocá-lo. Este, desde 1449 presidia à alcaidaria-mor de Belmonte e o Rei, quando lhe a doou de juro e herdade em 1464, autenticou nessa fonte não só serviços dele, mas os de seu pai e de seu avô, o que permite concluir que tal privilégio viesse na herança de Álvaro Gil e se instituísse depois em Belmonte com o bisavô de Pedro Álvares, ou seja com Luiz Álvares Cabral.
            Como serviram os Cabrais o princípio da fidelidade e quais as ligações desta nobre estirpe com a província da Beira? Eis o escopo do meu estudo, atentos os laços que ligam o Descobridor do Brasil à pequena pátria de todos nós, a Província da Beira, que Gil Vicente, mais tarde escolheria para representar a fama lusitana.
            Álvaro Gil Cabral, da família do Bispo da Guarda D. Gil, morreu em Coimbra em 1385, a seguir às Cortes de aclamação de D. João I, nas vésperas de Aljubarrota. Os seus bens transferiram-se logo para seu filho Luiz Álvares em Outubro desse ano, como consta da carta régia que confirmou tal doação. Mas de tais bens não constava a alcaidaria de Belmonte nem a da Guarda.
            Luiz Álvares só veio a radicar-se em Belmonte cerca de 1401 (Era de 1439) para receber a administração do morgadio de Maria Gil, constituído por bens na Covilhã e em Belmonte, anteriormente doados por El Rei D. Pedro ao referido D. Gil, mas só foi alcaide de Belmonte depois de ter cessado, por escambo, o domínio da mitra de Coimbra naquela vila e ainda o senhorio de Martim Vasques da Cunha ao ausentar-se para Castela em fins do século XIV.
            Luiz Álvares Cabral esteve na Tomada de Ceuta em 1415, como assevera Zurara; foi vedor do Infante D. Henrique e possuiu ainda Valhelhas, Manteigas, Vila Chã de Tavares e alguns bens em Azurara da Beira. Consta de um documento, ainda    inédito do arquivo da Câmara de Manteigas, que tinha casas em Belmonte  antes de ser alcaide-mor do Castelo.
            Faleceu entre 11 de Agosto de 1419 e 31 de Julho de 1421.
            Está documentada a sua residência em Belmonte em 1405, 1408, 1411 e 1419.
            Fernão Álvares Cabral, seu filho, herdou os bens de seu pai em 1421, mas de tais bens já não constava a Vila de Valhelhas, vendida anteriormente, com consentimento do Rei, a outro ascendente de Pedro Álvares Cabral, o nobre Fernão Álvares de Queiroz.  
            Conservamos notícias de Fernão d’ Álvares Cabral desde 1415, pois dirigindo-se para Ceuta houve de desembarcar por ser atacado de peste. Esteve em Ceuta seis anos onde combateu. Guarda-mor do Infante D. Henrique, casou com D. Teresa Novais de Andrade ou Freire de Andrade, viúva de Estevam Soares de Melo. Discutiu em 1430 com Rui de Melo e outros cunhados de sua mulher, os direitos à quinta de Melo, nessa Vila e compôs-se com eles, por imposição do Infante, no Castelo de Pombal. O seu esforço e lealdade foi tamanho que morreu no cerco de Tânger em 1437, sacrificando a vida para salvar a do Infante D. Henrique, seu senhor.
            Desde os tempos de Maria Gil que existia na Igreja de S. Tiago de Belmonte a Capela da Senhora da Piedade, com uma impressionante imagem dos fins do século XIV, talhada em granito e policromada.
            Depois de 1437 essa capela, cuja forma desconhecemos, cedeu o lugar a uma capela gótica, cujos capitéis trabalhados invocam episódios da vida de Fernão d’ Álvares Cabral. Daí concluímos que a arca tumular junta, guarda a sua nobre ossada, decerto trazida de Tânger, para consolação da viúva e dos filhos e homenagem póstuma ou do Rei, ou do Infante D. Henrique. Num dos capitéis surge uma figura de soldado oferecendo o seu corpo em defesa de outra figura que afasta para a rectaguarda. O sacrificado aparenta ser homem de trinta a quarenta anos, a presumível idade de Fernão d’ Álvares Cabral, a quando do seu sacrifício.
            Outro capitel representa um enorme peixe mordendo um homem, imagem decerto da peste, no mar, de que ele foi vítima, antes da tomada de Ceuta.
            Uma das ombreiras da frente ostenta um escudo real que poderia também ser o escudo do Infante D. Henrique se, as bordas carcomidas não vedassem a conclusão precisa. Este escudo é encimado por uma grande mão protectora que suavemente o domina entre as folhas de acanto.
            De Fernão Álvares Cabral guarda Belmonte este impressionante monumento que decerto sagraria indelevelmente para os combates da honra e da Pátria a mocidade de Pedro Álvares como o mais belo feito da fidelidade Cabralina. Uma procuração de Fernão Álvares Cabral, passada em Gouveia por Gil Fernandes, tabelião por El-Rei e a doação régia de Moimenta da Serra e algumas referências à sua estadia em Viseu, concluem o seu rasto ainda visível na nossa província.
           Fernão Cabral, filho deste Fernão d’ Álvares Cabral, foi o pai do achador das terras de Vera Cruz. Ainda era menor quando ficou órfão, em 1437; da sua meninice e juventude restam vários documentos de sua mãe, outorgando como sua representante legal. Lembrarei dentre eles um instrumento notarial, outorgado em Viseu, nos paços de D. Tereza de Andrade “ em 7 de Julho de 1441 “ e outro do mesmo ano, a 8 de Agosto, no Castelo da Menagem de Belmonte”.
            Fernão Cabral presumimos que tivesse nascido cerca de 1429 ; a primeira doação real em que lhe são confirmados bens da coroa vem de 1449, e nela surge já como fidalgo d’El Rei e criado do Infante D. Henrique, se bem que esta doação pressupusesse, com 20 anos, uma emancipação que não chegou até nós. A maioridade atingia-se aos 25 anos, nos termos das Ordenações Afonsinas, mas o rei, após os 20 anos, podia concedê-la.
            A doação respeita a Zurara da Beira, e a Moimenta da Serra, do concelho de Gouveia.
            Em 1450, Fernão Cabral quita a Câmara de Manteigas de várias colheitas: conhecemos o recibo exarado em Gouveia a 21 de Novembro desse ano.
            A biografia de Fernão Cabral apresenta um vivo interesse para fixar a data do nascimento de Pedro Álvares Cabral, o lugar do seu nascimento, e os quadros em que se modelou a sua educação e personalidade, e ainda para estudar a evolução do privilégio da escusa de menagem. Por isso vamos desenvolvê-la. A confirmação régia, já referida, de 1449 reconhece a Fernão Cabral os serviços dos seus ascendentes, mas o Rei acrescenta que também os espera dele.
            Portanto, nesta data, Fernão Cabral não tinha prestado ainda serviços ao Rei, embora se possa admitir os tivesse prestado ao Infante D. Henrique, seu senhor, a quem cumpria premiá-los.
            Em 1462, na doação da Igreja de S. Gião de Azurara, hoje Mangualde, já o Rei se refere aos serviços de Fernão Cabral.
            Onde e quais foram esses serviços? Fernão Cabral teria nesta data, pelos nossos cálculos cerca de 33 anos. Os serviços em África a que se refere um documento posterior teriam decerto decorrido entre 1449 a 1462.
            Cumpre atribuir a este período as trovas do Coudel-mor Fernão da Silveira, belo retrato poético do pai do descobridor do Brasil, nas páginas já citadas do Cancioneiro Geral.
            É o gigante da Beira antes de casar com D. Isabel de Gouveia, numa curiosíssima alegoria :
                    
                        “ Micer galante Cabral
                        boas novas Deus vos mande
                        sois em côrte feio ( grande )
                        e no campo outro tal...”

            A gentileza do pagem do Infante D. Henrique aflora destes versos : é feio e grande, na corte e no campo de batalha.
            A seguir o poeta compara-o ao conhecido trovador quatrocentista morto em combate de amor, trespassado pela lança vingadora de um marido ofendido :

                        “ Um Mancias sois segundo
                        por servir damas tornado
                        e dos galantes sois dado
                        como espelho neste mundo ...”

            As damas do paço de Afonso V confiavam no Gigante da Beira, abriam-lhe o coração e ele revolvia-lhes as paixões e as bodas; embora não jovem, mostrando-se pouco propenso ao casamento, é então considerado o maior amador de Portugal, sempre cioso de amores e cortejador das damas do palácio.

                        “ No paço vos vos trautais
                        creem as damas em vós, todas,
                        sois revolvelhas de bodas
                        mas das vossas não curais.
                        Picai-vos muito de amor/
                        quer vos venha bem quer mal
                        Não ha hy em Portugal
                        das damas tal servidor.”
          
            Fernão Cabral não se queda neste platonismo palaciano, dá-se a outras aventuras e em plano menos aristocrático:

                        “ Da espora de galinha
                        vos gabei gram lançador
                        outrosi motejador
                        gram falador com vezinha. “

            O poeta desejoso de amesquinhar um possível concorrente, revela depois às damas do paço as tropelias do fidalgo, nos bailes e feiras da Beira, mas ele adorado e desejado por elas vê aumentar ainda mais o seu prestígio.

                        “ Por metedor de alvoroços
                        entre moças de pandeiro
                        item mais de soalheiro
                        grão gastador de tremoços
                        Vos gabei cá na cidade
                        elas não no querem crer
                        e ficaram té vos ver
                        pra saberem se é verdade. “

            Fernão da Silveira alardeia ainda como último argumento de motejo o bastardinho de Fernão Cabral, aquele que ao depois seria o deão da Guarda, preceptor dos filhos de D. Manuel e Deão da Capela Real, o nobre e respeitado Diogo Fernandes Cabral, a quem certa crítica moderna atribui a inspiração da descoberta de Vera Cruz ao ouvido de Pedro Álvares, seu irmão.

                        “ Ora pois cumpre que entreis
                        com espada ao pescoço
                        historiando/ com o moço/
                        que saibam que o trazeis. “

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Covilhã - Lista dos Sentenciados na Inquisição XVII

Lista dos Sentenciados no Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa, Coimbra e Évora, originários ou moradores no antigo termo da Covilhã e nos concelhos limítrofes de Belmonte e Manteigas.

 431      José Mendes Pereira ou José Mendes, x.n., tintureiro, de 29 anos, natural e morador na Covilhã, filho de Martim Mendes ou Martinho Mendes, x.n., mercador e de Leonor Pereira, casado com Graça Nunes, neto paterno de Gaspar Mendes e Leonor Rodrigues e materno de Manuel Lopes, x.v., barbeiro e Mécia Pereira, naturais e moradores na Covilhã, bisneto de Manuel Lopes e Brites Antunes, x.x.v.v., pais do avô materno e de Diogo Pereira, alfaiate e Leonor Mendes, x.x.n.n., pais da avó materna, de 9/7/1704 a 21/8/1704. (A mulher, os filhos, a  mãe e os irmãos, a primeira uterina e os outros germanos são os referidos sob os nºs 553, 576, 580, 581, 394, 434, 432, 435 e 441 desta lista)
PT-TT-TSO/IL/28/2351                    

432      Diogo Mendes Pereira ou Diogo Mendes, x.n., mercador, de 27 anos, natural e morador na Covilhã, filho de Martinho Mendes ou Martim Mendes, x.n., mercador e de Leonor Pereira, x.n., casado com Clara Maria de Seixas, x.n., neto paterno de Gaspar Mendes e Leonor Rodrigues e materno de Manuel Lopes, x.v., barbeiro e Mécia Pereira, naturais e moradores na Covilhã, bisneto de Manuel Lopes e Brites Antunes, x.x.v.v., pais do avô materno e de Diogo Pereira, alfaiate e Leonor Mendes, x.x.n.n., pais da avó materna, de 9/7/1704 a 29/1/1712. (A mãe, a mulher, os  filhos e os irmãos, a primeira uterina e os outros germanos são os referidos sob os nºs 394, 622, 679, 764, 801, 907, 1016, 434, 435, 441 e desta lista)
PT-TT-TSO/IL/28/5475                   

433      Leonor Pereira, x.n., de 21 anos, natural e moradora na Covilhã, casada com António Martins, x.n., mercador, castelhano, natural de Salamanca, filha de Gaspar Mendes, curtidor e de Ana Pereira, neta paterna de Tomé da Silva, curtidor e Maria Nunes, natural e moradora no Fundão e materna de Simão Rodrigues, curtidor e sapateiro, natural de Celorico e de Leonor Pereira, natural da Covilhã, bisneta de  Gaspar de Siqueira, x.n. e Grácia Mendes, x.n., naturais de Sousel, pais do avô paterno, de Gaspar Mendes, x.n., barbeiro, natural do Fundão e Mécia Rodrigues, x.n., natural do Fundão, pais da avó paterna; de Manuel Lopes, x.v., barbeiro e Mécia Pereira, pais da avó materna, trisneta de Manuel Lopes e Brites Antunes, x.x.v.v., pais do bisavô Manuel Lopes e de Diogo Pereira, alfaiate e Leonor Mendes, x.x.n.n., pais da bisavó Mécia Pereira, x.n., (gª 19) de 28/7/1704 a 21/8/1704. ( A mãe, o marido, a avó paterna, os filhos e os irmãos são os referidos sob os nºs 434, 430, 397, 682, 735, 750, 893, 591, 617, 882 e 915 desta lista)
PT-TT-TSO/IL/28/4687                   

434      Ana Pereira, x.n., de 50 anos, viúva de Gaspar Mendes, x.n., curtidor, natural de Celorico e moradora na Covilhã, filha de Simão Rodrigues, curtidor, natural de Celorico e de Leonor Pereira, natural da Covilhã, neta materna de Manuel Lopes, x.v., barbeiro e Mécia Pereira, bisneta de Manuel Lopes e Brites Antunes, x.x.v.v., pais do avô materno e de Diogo Pereira, alfaiate e Leonor Mendes, x.x.n.n., pais da avó materna, de 9/7/1704 a 21/8/1704. ( Mãe, a filha e os irmãos uterinos são os referidos sob os nºs 394, 433, 435, 431 e 441 desta lista)
PT-TT-TSO/IL/28/5333                                

435      Ana Mendes Pereira ou Ana Mendes, x.n., de 42 anos, natural do Teixoso e moradora na Covilhã, mulher de Diogo Pereira ou Diogo Nunes Pereira, mercador, natural de Fronteira, filha de Martim Mendes ou Martinho Mendes, mercador e de Leonor Pereira, neta paterna de Gaspar Mendes e Leonor Rodrigues e materna de Manuel Lopes, x.v., barbeiro e Mécia Pereira, bisneta de Manuel Lopes e Brites Antunes, x.x.v.v., pais do avô materno e de Diogo Pereira, alfaiate e Leonor Mendes, x.x.n.n., pais da avó materna, de 9/7/1704 a 21/8/1704. ( Mãe, o marido, os filhos, a avó e a irmã uterina e os irmãos germanos são os referidos sob os nºs   394, 437, 439, 503, 644, 781, 434, 431, 432 e 441 desta lista)
PT-TT-TSO/IL/28/5306                                
                       
436      João António Nunes de Lara, x.n., mercador, de 42 anos, natural de Medina del Campo, Espanha, morador na Covilhã, filho de Manuel Lopes, mercador e de Brites Nunes, viúvo de Manuela Lopes, de 1/7/1704 a 23/8/1704. (O irmão é o referido sob o nº 428 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/2353                    

437      Diogo Pereira ou Diogo Nunes Pereira, x.n., mercador, de 43 anos, natural de Fronteira e morador na Covilhã, filho de Álvaro Pereira, x.n., curtidor e de Violante Pereira, x.n., casado com Ana Mendes Pereira ou Ana Mendes, de 9/7/1704 a 29/8/1704. (A mulher e os filhos são os referida sob os nºs 435, 439, 503, 644 e 781 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/2094                    

438      Ana Mendes Pereira, x.n., de 19 anos, mulher de Francisco Lopes Pereira, natural e moradora na Covilhã, filha de Manuel Lopes Raposo ou Manuel Lopes Henriques Raposo ou Manuel Lopes Henriques, mercador e de Leonor Pereira, neta paterna de Francisco Lopes Monsanto, x.n., curtidor e de Maria Henriques, x.n., e materna de Martim Mendes ou Martinho Mendes, mercador e de Leonor Pereira, bisneta de Francisco Lopes e Constança Lopes, pais do avô paterno, de Luís Fernandes e Isabel Fernandes, pais da avó paterna, de Gaspar Mendes e Leonor Rodrigues, pais do avô materno e de Manuel Lopes, x.v., barbeiro e de Mécia Pereira, pais da avó materna, trisneta de Manuel Rodrigues o Borrinhos de alcunha, x.n., e Violante Mendes, x.n., naturais do Fundão, pais de Gaspar Mendes, de Manuel Lopes e Brites Antunes, x.x.v.v., pais do bisavô Manuel Lopes e de Diogo Pereira, alfaiate e Leonor Mendes, x.x.n.n., pais da bisavó Mécia Pereira, de 9/7/1704 a 23/8/1704. ( O pai, a mãe, os irmãos e a  avó materna são os referidos sob os nºs 427, 441, 649, 650, 681, 685, 688, 774, 900 e 394 desta lista)
PT-TT-TSO/IL/28/5307                                

439      Leonor Pereira, x.n., de 21 anos, natural e moradora na Covilhã,  mulher de Pedro Rodrigues Henriques, x.n., mercador, filha de Diogo Pereira ou Diogo Nunes Pereira, x.n., mercador, natural de Fronteira e de Ana Mendes Pereira, ou Ana Mendes, x.n., natural da Covilhã, neta paterna de Álvaro Pereira, x.n., curtidor e de Violante Pereira e materna  de Martim Mendes ou Martinho Mendes, mercador e de Leonor Pereira, bisneta de Gaspar Mendes e Leonor Rodrigues, pais do avô materno e de Manuel Lopes, x.v., barbeiro e de Mécia Pereira, pais da avó materna, trisneta de Manuel Rodrigues, x.n., e Violante Mendes, x.n., naturais do Fundão, pais de Gaspar Mendes, de Manuel Lopes e Brites Antunes, x.x.v.v., pais do bisavô Manuel Lopes e de Diogo Pereira, alfaiate e Leonor Mendes, x.x.n.n., pais da bisavó Mécia Pereira,  de 8/7/1704 a 25/8/1704. ( O pai, a mãe, o marido, os irmãos e a avó materna são os referidos sob os nºs 437, 435, 447, 503, 644, 781 e 394 desta lista)
PT-TT-TSO/IL/28/5301                                

440      Branca Henriques, x.n., de 31 anos, natural do Fundão e moradora na Covilhã, mulher de Baltazar Henriques Coelho, ou Baltazar Henriques, filha de Diogo Lopes Ferreira, x.n., tabelião de notas, natural do Fundão e de Beatriz Henriques, x.n., natural de Monsanto, moradores que foram na Covilhã, neta paterna de António Lopes Ferreira e de Branca Rodrigues e materna de Manuel Rodrigues “o Redondo”, natural de Monsanto e de Branca Rodrigues, natural do Fundão,  de 16/7/1704 a 13/11/1704. (O pai, a mãe, o marido, as irmãs e o filho são os referidos sob os nºs 358, 383, 462, 423, 425, 426, 442 e 636 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/9037                                

441      Leonor Pereira, x.n., de 35 anos, natural e moradora na Covilhã, mulher de Manuel Lopes Raposo, ou Manuel Lopes Henriques Raposo, x.n., mercador, filha de Martim Mendes ou Martinho Mendes, mercador e de Leonor Pereira, neta paterna de Gaspar Mendes e Leonor Rodrigues e materna de Manuel Lopes, x.v., barbeiro e Mécia Pereira, bisneta de Manuel Rodrigues, x.n., e Violante Mendes, x.n., naturais do Fundão, pais do avô paterno, de Manuel Lopes e Brites Antunes, x.x.v.v., pais do avô materno e de Diogo Pereira, alfaiate e Leonor Mendes, x.x.n.n., pais da avó materna, de 10/7/1704 a 29/8/1704. ( O marido, os filhos, a mãe, a irmã uterina e os irmãos germanos são os referidos sob os nºs 427, 438, 649, 650, 681, 685, 688, 774, 900, 394,  434, 431, 432 e 435 desta lista)
PT-TT-TSO/IL/28/4686                                

442      Beatriz Henriques, x.n., de 26 anos, natural do Fundão e moradora na Covilhã, filha de Diogo Lopes Ferreira, x.n., tabelião de notas, natural do Fundão e de Beatriz Henriques, x.n., natural de Monsanto, moradores que foram na Covilhã, neta paterna de António Lopes Ferreira e de Branca Rodrigues e materna de Manuel Rodrigues “o Redondo”, natural de Monsanto e Branca Rodrigues, natural do Fundão, casada (em 2ªs núpcias dele) com Francisco Henriques ou Francisco Henriques Ferreira, tintureiro, de 17/7/1704 a 16/9/1704. Tem processo 7758-1 cozido ao 7758. (O pai, a mãe, o marido e as irmãs são os referidos sob os nºs 358, 383, 445, 423, 425, 426 e 440 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/7758 e 7758-1

443      Filipa Henriques, x.n., de 52 anos,  natural da Covilhã e moradora em Lisboa, filha de António Rodrigues Vaz e de Isabel Rodrigues, naturais da Covilhã, casada com Manuel Nunes Chaves, de 3/7/1664 a 26/8/1703. Faleceu em 23/8/1703. (O marido é o referido sob o nº 415 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/12213  

444    Simão Nunes Rios, x.n.,de 33 anos, solteiro, homem de negócio, rendeiro, natural e morador na Covilhã, filho de André Nunes, x.n., rendeiro, que foi homem de negócio, contratador, natural da Covilhã e de Joana Nunes, x.n., natural de Belmonte, moradores na Covilhã, neto paterno de Jorge dos Rios e Joana Nunes e materno de Cristóvão Nunes e Ana Rodrigues, e bisneto de Fernão Lopes, x.n., mercador e Brites Rodrigues, pais da avó Joana Nunes, (O pai, a mãe, os irmãos são os referidos sob os nºs 307, 309, 731, 732, 733, 808 e 935 desta lista), de 6/9/1703 a 6/11/1704.
PT-TT-TSO/IL/28/2789                         

445    Francisco Henriques Ferreira, x.n., de 55 anos, tintureiro, natural e morador na Covilhã, filho de Pedro Henriques Ferreira, mercador e de Catarina Rodrigues, casado em 2ªs núpcias com Beatriz Henriques, x.n., tendo sido casado em 1ªs núpcias com Joana Henriques, x.n., natural de S. Vicente da Beira, de 2/10/1703 a 6/11/1704. (A mulher, os filhos e os irmãos são os referidos sob os nºs 442, 458, 648, 631, 624, 653, 840, 797, 799, 724, 798, 779, 469 e 470 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/8774.              

446   António Gomes Cáceres, x.n., de 61 anos, tratante, natural e morador na Covilhã, filho de Manuel Gomes ou Manuel Gomes Cáceres e de Isabel de Cáceres, casado com Leonor Rodrigues, x.n., de 22/8/1703 a 28/10/1704. (O filho, o neto e os irmãos são os referidos sob os nºs 452, 992, 283 e 376 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/2360.    

447  Pedro Rodrigues Henriques, x.n., tratante, de 32 anos, natural de S. Vicente da Beira, morador na Covilhã, filho de Alexandre Henriques da Costa, tratante e de Beatriz Rodrigues, casado com Leonor Pereira, x.n, de 15/2/1703 a 1/11/1704. (A mulher é a referida sob o nº 439 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/5255.     

448  Álvaro Mendes, x.n., de 26 anos, solteiro, natural de Monsanto, morador em Setúbal, filho de Manuel Mendes, natural do Fundão  e de Isabel Rodrigues, natural de Monsanto, de 3/10/1704 a 8/11/1704, auto de fé de 19/10/1704 .
PT-TT-TSO/IL/28/10117

449   Pedro Lopes Henriques ou Pedro Lopes Henriques Samuda, x.n., clérigo in minoribus, de 26 anos, natural e morador na cidade de Lisboa, filho de Simão Lopes Samuda, médico, natural de Odemira e de Isabel Henriques, x.n., natural da Covilhã, neto paterno de António de Samuda e Guiomar Dias e materno de João Esteves Henriques e Catarina Henriques, bisneto de Diogo Henriques e Branca Lopes Henriques, pais do avô materno e de Álvaro Rodrigues e Custódia Henriques, pais da avó materna, de 15/3/1703 a 6/11/1704. (A mãe e os irmãos são os referidos sob os nºs 298, 450, 451 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/2792.

450     João Esteves Henriques de Samuda, x.n., de 30 anos, solteiro, tratante, natural e morador em Lisboa, filho de Simão Lopes Samuda, médico, natural de Odemira e de Isabel Henriques, x.n., natural da Covilhã, neto paterno de António de Samuda e Guiomar Dias e materno de João Esteves Henriques e Catarina Henriques, bisneto de Diogo Henriques e Branca Lopes Henriques, pais do avô materno e de Álvaro Rodrigues e Custódia Henriques, pais da avó materna, de 15/3/1703 a 24/9/1705,auto público de 6 / 9 / 1705. (A mãe e os irmãos são os referidos sob os nºs 298, 449, 451 desta lista).
PT-TT-TSO/IL/28/8337

Fonte – Os dados em itálico foram retirados do “site” do ANTT – Arquivo Nacional da Torre do Tombo relativo aos processos do Tribunal da Inquisição.
Na cota dos processos, as indicações IL/28, IC/25 e IE/21 referem-se aos tribunais, respectivamente, de Lisboa, Coimbra e Évora.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Covilhã - Contributos para a sua História dos Lanifícios IX

Baldios – Os ventos do fisiocratismo.
A arte de fabricar.
Deficiências

Não podia Rodrigues da Silva, como filho do seu tempo, ficar indiferente ao problema da terra. Já nas primeiras páginas da sua memória lhe consagrara esclarecedoras palavras para referir o nexo natural existente entre a indústria e a agricultura. Agora volta ao problema para estabelecer as ligações entre a criação do gado, fonte abastecedora da indústria e o sistema dos fundos da propriedade e da fruição da terra. A terra divide-se entre a Coroa, as Ordens da Nobreza e do Clero, os concelhos e os particulares, mas a propriedade ainda não reveste feição absoluta. A terra dos concelhos constitui-se em duas grandes fracções: os bens próprios e os baldios. A propriedade particular em geral é aberta e anda normalmente sujeita à servidão do compáscuo. Para os baldios propõe Rodrigues da Silva a divisão pura e simples pelos mesteres das localidades, visto o sistema só beneficiar um reduzido número de proprietários de rebanhos, em geral gente abastada. Para o escopo principal do autor: o armentio, estes baldios em nada beneficiam a criação dos gados. Aqui parece estar enganado. A exploração do armentio em regime de openfield dá lugar a um tipo de indústria de criação independente da propriedade e a posse da terra abriu assim caminho a uma classe média rural dos criadores de gado transumante. Deixa que os bens próprios, o logradouro comum do concelho, se mantenha “como garante dos socorros de cada povoação“. Mas a propriedade particular aberta repugna aos seus anseios de fisiocrata em essência. A terra deve libertar-se de tal encargo próprio dos tempos bárbaros. Cada um deve usufruir aquilo que é seu em toda a plenitude. A enclosure é de direito natural. De outro modo a terra permanecerá inculta e a agricultura prejudicada. Os pastos comuns nas terras dos particulares constituem um abuso perante o direito natural. Chama a justificar o seu ponto de vista o parecer do Real e Supremo Conselho de Castela que continuava então a pugna secular com a Mesta. É numa palavra o reflexo entre nós, dessa luta dos livres proprietários dos rebanhos e dos novos titãs da agricultura. Sentem-se os novos ventos do fisiocratismo a bater-se pela libertação da terra. O sistema das terras abertas, defendidas como elemento necessário à difusão do gado e seu pasto é, agora, apresentado como contrário a esse fim. O proprietário, molestado no seu domínio restrito, abandonara as terras: as folhas normalmente de três anos passaram a seis e doze. Voltava agora, não já vestindo a armadura de filho de algo, mas o surrobeco de rural aburguesado. Terras que podiam ser cultivadas em regime de prado artificial, alimentar seiscentas cabeças, sustentam só duzentas ou pouco menos. A terra que deveria produzir grãos, dá pastos deficientes e magros. Em defesa da sua tese dos prados artificiais e da terra fechada indica a Holanda, terra farta, rica de prados e de gados. Mas deste quadro não deve concluir-se, generalizando, que esse sistema de fruição da terra era comum ao país. É nítida a referência ao Alentejo e às terras desertificadas do sul da Beira Baixa, prenúncio geográfico da planície alentejana. O Minho, a Beira Alta, o Douro, a Beira marítima, a Cova da Beira, como hoje, eram já a terra dividida, dos pequenos fundos, onde a enclosure predominava. E Rodrigues da Silva não o esquece quando refere a abundância, a fartura e o aproveitamento da Covilhã e do termo. Contudo nesta batalha não é original. Outros o antecederam. O ruralismo anti-pastoril é velho de séculos entre nós e marca até a característica principal da nossa política agrária. Os pensadores, desde Severim de Faria, Marchão Temudo até aos pré-fisiocratas da Academia das Ciências assentaram aí os seus anseios de intervencionismo económico.
Tinha Rodrigues da Silva uma ideia perfeita do que eram os lanifícios ou a arte de fabricar. Bem sabia ele, portanto, a íntima ligação que mantinham entre si todas as operações da engrenagem desta arte. Falhando um dos anéis, toda ela se ressentia. Não bastava afinar algumas secções, se a restante não seguisse em ritmo ou perfeição das demais. Por isso foram sempre diminutos e inacabados os resultados da reformação pombalina, cujos mestres, pouco hábeis, não reuniam os conhecimentos necessários ao fabrico geral do tecido e nas suas respectivas especialidades muito deixavam a desejar. Além de Sallesses, notável tintureiro francês, parece que todos os demais eram aventureiros fugidos da pátria aonde não passavam de operários de segunda ou terceira categoria. Era, pelo menos, essa a tradição que deixaram na Covilhã, tradição que Rodrigues da Silva nos transmitiu, apesar do seu conhecido pombalismo. Mas seria de facto assim? Salvo raras excepções parece assim ter sido de facto, não obstante, noutro lugar, o mesmo Rodrigues da Silva não temer em exaltar certos tipos de fazenda nacional e até compará-la com a inglesa, dando a primazia ao pano português. E que admirava se as técnicas da perfeição do tecido ainda se mantinham estacionárias e os métodos clássicos usados com tempo e cuidado, continuavam a ser o caminho daqueles que prezavam o seu nome comercial. Ainda hoje é possível, em certas secções, conseguir obter trabalho mais perfeito, se bem que muito moroso, utilizando técnicas antiquadas ou sistemas caducos. Não assim na fiação e penteação e ainda na tecelagem onde a perfeição dos maquinismos veio trazer uma uniformidade tal, como nunca fora atingida pelos processos manuais, para não se falar já, no campo económico.
O que levava Rodrigues da Silva a repudiar a sabedoria dos mestres que o Pombalismo pôs à frente das Fábricas Reais era a carência da sua especialização, ele que acreditava com devoção íntima de mercantilista, nos métodos da divisão do trabalho! Sem ela não achava possível alcançar o progresso. Contudo essa divisão do trabalho existia na Covilhã do seu tempo, embora não tocasse as cumeeiras que ele ansiava por ver atingidas: o domínio do mestre geral. Mas aqui não tinha ele inteira razão, embora os resultados aparentemente lha pudessem ter dado. Não derivava de Pedro Bray, o irlandês das ultimações, ser só mestre consumado de uma das secções da “fábrica“ dos panos que a sonhada perfeição não fora sequer lobrigada – mas por carência de direcção e da chamada técnica das ideias gerais, que no seu posto, mais do que em qualquer outro, se fazia sentir.
O Ensino da Arte de Fabricar - Também o ensino das artes mereceu a atenção do autor: era a influência do pombalismo remoto que continuava a fazer-se sentir. Não que antes dele se não tivesse em vista um progresso técnico pelo ensino, mas porque só o pombalismo inaugurou um sistema docente para certas e determinadas artes. Não foi original nem aplicou ideias exclusivas, filhas de uma pesquisa experimental, mas foi inovador, instalou no país métodos há muito usados na Europa. Contudo não abrangeu, no conjunto, todos os princípios que esse ensino implicava. Para conseguir efeitos palpáveis, na arte dos lanifícios, convinha ter a consciência de que essa arte era complexa e formada por ofícios “encadeados”. Uma reforma eficiente pressupunha o ensino de todos os ofícios no mesmo nível. Ora, informa-nos Rodrigues da Silva, pombalista confesso, ao menos de credo, que isso não aconteceu. A tradição próxima corria no sentido da pouca competência de cada um dos mestres contratados: eles mesmos não foram recrutados nos países tecnicamente mais avançados, sob um plano certo e anteriormente meditado, como no caso de Ericeira, um século antes. Vieram pelo seu pé, imigrantes, que na sua terra suportavam os efeitos da falta de trabalho e emigravam. Esta selecção era necessariamente deficiente: Os bons nunca têm que emigrar. Embora alguns viessem de França, Inglaterra, outros vieram de Espanha, cuja indústria, nalguns centros era tão deficiente como a nossa; seria como a que vinha de Bejar. O caso da Catalunha era diferente.
Não foi, porém, só esta a deficiência da reforma pombalina. Não foi só a técnica de cada ofício que não atingiu o grau de perfeição desejável – foi a direcção geral do fabrico que a nova técnica industrial de concentração de ofícios pressupunha, foi a afinação geral de cada um dos ofícios no conjunto para alcançar um fim igual e tanto quanto possível perfeito.
Indica dois exemplos, os dos mestres Pedro Bray, inglês ou irlandês e o do mestre Sallesses, francês. Ambos foram escolhidos como mestres gerais quando a sua competência era reduzida, a do primeiro à ultimação e a do segundo à tinturaria. Ora já então o ofício aglutinador de todas os restantes, nesta arte dos panos, era a tecelagem. Mas não bastava, mesmo na tecelagem, uma perícia técnica acentuada no ofício respectivo, para uma direcção eficiente do conjunto.
A tecnologia geral exigia conhecimentos gerais de todos os ofícios e técnicas e, essa, faltava aos mestres. Numa palavra a empresa materialmente já existia, o empresário, misto de comerciante e de superintendente técnico é que faltava! Esse, haviam de criá-lo as forças novas do capitalismo, já em acção. Alguns já existiam nos pequenos empresários em essência – os mercadores e os fabricantes volantes. Daqui é que havia de sair o nosso empresário capitalista.

Roda de Fiar introduzida em Portugal nos meados do séc. XVIII. Estampa existente no Museu dos Lanifícios, Covilhã
in, Museu dos Lanifícios, Universidade da Beira Interior 

Depois havia os ofícios que estavam em plena transformação técnica. Um deles era a Tinturaria. Outros numa evolução ainda experimental como a Fiação. Esta indecisão técnica não era favorável à criação de bons oficiais. Os melhores mestres, longe dos centros inovadores, em breve se desactualizavam.
Qualquer reforma a efectuar devia ter presente esta dupla realidade, constituída pelas oficinas especializadas e pelos tecelões-fabricantes, quase industriais. A fábrica girava sobre estes dois pilares, independentes, mas forçadamente interdependentes. Não podiam viver ou prosperar uns sem os outros. Coexistindo com eles vivia outro elemento, o mercador. O mercador era o capitalista em gérmen. Colaborava umas vezes, quando a carência do mercado elevava a posição do industrial e do artesão; explorava outras, quando a conjuntura económica era adversa ao industrial e ao tecelão-fabricante. Jogava com a matéria-prima, se conseguia estancá-la e com as tintas, quando da mesma maneira as monopolizava no momento crítico da estação. Mas era um elemento imprescindível: sem ele não havia distribuição e, sem distribuição, o consumo resumia-se ao mercado local e surgia a estagnação. O mercador foi a força que transformou a economia de estática em dinâmica.
Porém, no tempo de D. João V, como este elemento enfraquecesse com a emigração judaica, um novo elemento entrou em acção, fruto das ideias mercantilistas, ainda em embrião, neste sector: o fardamento das tropas. Que força económica representa este exclusivo?
Servidor de todos, andava o corpo dos almocreves que, em cavalgaduras e carros, trazia as lãs da fronteira ou da planície alentejana e depois levava as peças aos mercados e feiras de Mangualde e Celorico, despejava-as nos barcos do Tejo em Vila Velha de Ródão ou em Abrantes para Lisboa. Com partidas periódicas e em dias certos, por estradas esburacadas ou córregos a tornear a montanha, em invernos agrestes ou em dias soalheiros de verão, lá iam de bacamarte a proteger a mercadoria preciosa das investidas de bandidos cobiçosos ou dos malandrins que se acoitavam nos pinhais e nas encruzilhadas.
Outros, menos afoitos, contentavam-se com o frete do arrabalde, de oficina para oficina ou, como carregadores de matos, escalavam a serra em demanda do mato para alimentar as fornalhas das tinturarias e pisões. Aí a fazenda se purificava e tingia na derradeira fase do acabamento.
O transporte das lenhas para as fábricas já preocupava os fabricantes do século XVII e a ele Villas Boas se referiu na sua correspondência para o Conde da Ericeira.

Reflexões de Luiz Fernando Carvalho Dias 

Nota dos Editores -  Voltamos a referir que estes textos foram escritos pelo autor na década de cinquenta do século passado e não chegaram a ser revistos por ele.

sábado, 20 de agosto de 2011

Covilhã - Fotografias Actuais II


Propomos que “observem” as ribeiras da Carpinteira e da Goldra em Agosto de 2011. Segundo Luiz Fernando Carvalho Dias, na sua Descrição de 1943, elas foram uma “fonte de energia fabril dos lanifícios covilhanenses”.
As fotografias de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias, que hoje apresentamos, mostram-nos a Carpinteira ou Ribeira Velha a partir do Bairro dos Penedos Altos e da ponte pedonal inaugurada em 2009. Esta ponte representa o progresso, enquanto várias fábricas abandonadas são o símbolo da decadência da indústria dos lanifícios.

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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Covilhã - Invasões IV

Hoje publicamos a transcrição de umas páginas da obra de Acúrsio das Neves, feita por Luiz Fernando Carvalho Dias , sobre um episódio passado na Covilhã aquando da 1ª Invasão Francesa.
No Tomo 4º (de a “História da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino”, escrita por José Acúrsio das Neves, 5 vols., Lisboa, 1810) - “Neves (1) refere-se com lástima aos tumultos contra os judeus em algumas terras da Beira e Trás-os-Montes, derivados de alguns se fazerem com os franceses.

Fls 259 “Observarei de passagem, que a mesma animosidade contra os judeus, que se manifestou em Bragança e em Vila Nova de Foz Côa, aparece igualmente em Viseu, na Covilhã, no Fundão e em todas as terras do Reino, onde há fama deles se acharem estabelecidos; e por toda a parte se lhes fizeram as mesmas imputações de aderência aos franceses. Porventura teriam elas algum justo fundamento? No geral não o creio, no particular alguns indivíduos poderia haver que merecessem esta nota, assim como os houve em todas as classes e hierarquias de pessoas:”

Ver Cap. XXXII, a fls 65, do vol. 4º

“A Guarda foi tomada sem defesa em 3 de Julho de 1808 por Loison, depois de se ter levantado no dia precedente.
“Por este tempo se levantou a Covilhã, vila notável que o grande trato dos lanifícios (2) tem feito populosa e rica, a qual se estende sobre uma ramificação da serra da Estrela no seu flanco meridional 6 léguas abaixo da Guarda. O Zêzere, que corre em pequena distância, e uma infinidade de regatos, que caem das montanhas, ajuntam a fertilidade à amenidade dos seus campos e às vistas soberbas e pitorescas que ornam este país, um dos mais deliciosos de Portugal. A vila acha-se um pouco desviada da estrada e a sua posição a salvou de ser destruída.
Logo que se efectuou na Guarda o levantamento do dia 2, expediram-se avisos à Covilhã (assim como outras mais terras em roda), os quais concorreram com outros do Governador de Coimbra; e foi em consequência deles que o juiz de fora Caetano de Melo da Gama Araújo e Azevedo aclamou de suas janelas o nome do Príncipe Regente a 3 pelas 9 horas da manhã. De tarde repetiu-se a aclamação pelas ruas em concurso e procissão solene da Câmara e de um grande número de pessoas de todas as ordens; sendo conduzido o estandarte Real pelo Tenente-Coronel do 1º Regimento de Milícias da Comarca Gregório Tavares. Estava destinado o dia 4 para a celebração de um Te Deum, mas chegando nesse mesmo dia pelas 7 horas da manhã a notícia dos estragos da Guarda e da marcha de Loison, foi necessário suspender as funções da Igreja, para se cuidar nas de defesa.
Gregório Tavares pôde reunir uns 200 homens, quando muito, do seu dissolvido regimento. O Juiz de Fora, e os oficiais das ordenanças ajuntaram um maior número de paisanos que trataram de armar do modo possível, e distribuir pelos postos de mais importância: pólvora achou-se bastante, mas faltavam as balas que somente puderam fazer-se depois de passado o perigo, e também as espingardas eram em pequeno número. O Povo manifestava grande entusiasmo; e aqueles que se tinham posto à sua frente para o dirigir, muita actividade e muito patriotismo; foram porém manchadas estas disposições com o sangue de dois infelizes ingleses: exporei o facto.
Achavam-se estabelecidos na Covilhã um irlandês chamado Mateus Reynolds, homem assaz industrioso e com muitos conhecimentos das artes e um outro estrangeiro, que lhe servia de língua e de ajudante, encarregados da construção de uma nova máquina para a fiação das lãs da fábrica.
Estes homens, que como estrangeiros, e pode ser por génio, tinham pouca comunicação com a gente da terra, não tomaram a parte activa que o povo queria nestes seus movimentos. Quando se andava pelas casas pedindo a cada um armas e munições que tinha, também se foi ter com eles e não quiseram dar as suas, fazendo-se, por isso, suspeitos ao povo, que em consequência os apertou mais vivamente, e eles se encerraram em casa. Em um instante foi esta rodeada e, saindo o língua com uma espada na mão, como quem queria brigar, apenas ia pondo os pés na rua, caiu morto no meio da multidão. Então Reynolds se fechou depressa por dentro e rompeu no desvario de subir a uma janela e fazer fogo sobre o imenso povo, que tinha concorrido; imediatamente uns investiram a porta, outros as janelas e outros, mesmo, aos telhados e o infeliz, querendo atravessar por entre a multidão, caiu oprimido e atordoado com pancadas, mas não morto. Pediu a confissão e, é o que lhe salvou a vida, porque suspendeu o furor popular; era tal o estado em que se achava, que o conduziram em uma tumba para a Misericórdia, conseguiu porém restabelecer-se e foi, depois, remetido para o Porto.
Muitas balelas se espalharam a respeito destes estrangeiros e, penso que sem fundamento verdadeiro. Registaram-lhes exactissimamente a casa e achando-lhes alguns arráteis de pólvora, e uma porção de balas de cobre, que provavelmente lhe serviriam de alguma coisa para o uso das suas máquinas, chamaram-lhes traidores e publicaram que tinham correspondência com os inimigos e conservavam para eles grandes depósitos de armas e munições, até das balas de cobre figuraram balas envenenadas, e da pertinaz resistência que se propuseram fazer, tirou-se por conclusão, que esperavam os franceses, pensando pelo ruído do povo que ouviam serem estes que vinham já entrando na terra.
É muito provável que Loison se não propôs a entrar na Covilhã; se se propusesse não havia ali forças que lhe pudessem obstar.
Foi seguindo a estrada direita e na tarde do mesmo dia 4 se avistou a 2 léguas da vila para as partes de Belmonte, ficando-lhe de permeio o Zêzere. Toda a noite seguinte foi de grande reboliço e Gregório Tavares teve o arrojo de ir com um piquete observar o inimigo junto ao lugar de Caria, onde tinha acampado: Loison o que queria era ver-se livre do meio de tantos povos insurgidos e, por isso, sem aceitar desafios, levantou campo e continuou seu caminho, ficando em poder dos nossos um extraviado, que foi conduzido à Covilhã com grande alvoroço e declarou que era de 4.400 homens e não levava artilharia.
Á vista do prisioneiro levantou-se um franciscano chamado Fr. José da Madre de Deus, natural e morador na Covilhã e disse: Pois eu não hei-de também ir buscar alguns prisioneiros?
Foi dito e feito; saiu acompanhado somente de um paisano valoroso chamado o Bichinho, passando o Zêzere uniram-se mais quatro paisanos do lugar de Peraboa e foram dar com sete franceses junto à Capinha, de que mataram um e aprisionaram os seis restantes. Foi este o primeiro passo da carreira patriótica e militar do Padre Fr. José da Madre de Deus, em que depois se distinguiu muito, qual outro frade do hábito branco, principalmente no bloqueio de Almeida. Eu o conheci ultimamente em Lisboa, solicitando licença para ir levantar uma guerrilha contra o exército de Massena.
O Fundão despovoou-se, mas Loison não entrou nesta vila porque se não desviou da estrada. Assim mesmo lhe foram ficando por aquelas terras bastantes prisioneiros, que provavelmente se extraviavam, por não poderem seguir a marcha”.

Notas dos editores – 1) José Acúrsio das Neves (1766-1834) licenciou-se em Leis na Universidade de Coimbra. Casou e exerceu a profissão de magistrado, juiz de fora e corregedor em Angra do Heroísmo. Voltou à Beira, onde escreveu panfletos nacionalistas contra os franceses invasores. Exerceu profissões públicas como deputado, desembargador, ou dirigente da Real Fábrica das Sedas. Mas a Revolução Liberal de 1820 apanhou-o, primeiro abraçando-a e depois criticando-a e apoiando a contra-revolução  e o governo miguelista. Apareceu morto na Beira, num palheiro, onde, é voz corrente, se costumava esconder. Distinguiu-se como economista e defensor da indústria em Portugal. 2) Acúrsio das Neves também publicou em 1820 “Memória sobre os Meios de Melhorar a Indústria portuguesa Considerada nos seus Diferentes Ramos”