domingo, 1 de janeiro de 2017

Covilhã - Instituições Primitivas de Solidariedade Social IV



Encontrámos no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias, uma Carta de D. Afonso V sobre mais uma Confraria, a de São João de Mante em Collo, constituída, em época anterior, por trinta confrades com obrigações várias. Dado que a dita confraria se desfez, a administração dos seus bens vai ser entregue a Álvaro Fernandez, em 1480.


A cidade da Covilhã, a partir do Pisão Novo

Administraçam dos bêes da comfraria de sam Joham de mante em collo que he na villa de covilhaa a aluaro fernandez


Dom Afomso etc. A quamtos esta nossa carta virem fazemos saber que a nos disseram que em huua jgreja da uilla de couilhaa que se chama sam Joham de mante em collo fora hordenada huua comfraria em a qual auia trinta comfrades e se deziam em ella misas em cada huu anno com çirios açesos e outras solenidades pollas almas daquelles que em ella seus bêes leixaram per que se todo fazia e comtaua e que ora a dita comfraria era de todo desfeita e nam auia hy senam dous outros comfrades os quaees nam mandauam dizer as ditas misas nem fazer outras cousas que pellos defumtos foram hordenadas mas ante deram os bêes a seus filhos em casamento e delles uemderom e desbarataram e emlhearam e fezeram o que lhes aprouue e que por ello e por bem das hordenações por os ditos bêes serem profanos e pertemçiam a nos e os podiamos dar a quem nossa merçe fose Pedimdonos por merçee aluaro fernamdez escudeiro de Ruy gomçaluez comtador em a çidade da Guarda que por asy a dita comfraria seer desfeita e os bêes serem todos desbaratados e emlheados lhe fezesemos merçee daministraçã e bêes da dita capella comfraria e elle a queria ministrar fazer E nos vemdo o que nos asy dizer e pedir emuiou amte de sobre ello darmos outro alguu liuramento e sabermos se pertemçia a nos de direito darmos tal aministraçam mãdamos sobre ello primeiramente tirar Jmqueriçam e fazer uir peramte nos a dita Jmstituiçam as quaees vistas per nos e a delligemçia que se sobre ello fez e como a primeira fumdaçam da Jmstituiçam he tal que se lleer nam pode toda e pello que se nella lee nam se mostra cousa que empache nem aja de empedir a nos que a nam ajamos de proueer pois que os bêes sam profanos e se mostra per a dita Jmqueriçam sobre esto tirada que os ditos bêes andam em alheados sem se comprir as cousas de que sam emcarreguados. E ora queremdo nos fazer graça e merçee ao dito aluaro fernamdez vista per nos a dita Jmqueriçam Teemos por bem e fazemos lhe merçee dos ditos bêes da dita comfraria e aministraçam com tanto que elle seja obriguado de demandar e desemlhear todollos bêes que andam emlheados e os fazer emcorporar em a dita aministraçam segumdo que primeiramente andauã. E mais seja obriguado a fazer cantar em cada huu anno dez misas ao menos pollas almas dos pasados que a dita comfraria fundarom e dotarom de seus bêes segumdo que amtiguamente se fazer soya e os ditos bêes e proueedor delles eram obriguados e ao presemte sam e bem asy que a casa com seus leitos e camas se corregua e Repaire Refaça forneça e mantenha pera os viandantes serem alberguados em tal modo e forma que o que amtiguamente se fazia e oje em dia fazer dano seja sempre acreçemtado e numca minguado. E porem mãdamos a todollos nossos Corregedores juizes e justiças ofeçiaees e pesoas a que ho conheçimento desto pertemçer per qualquer guiza que seja que esta nossa carta for mostrada que semdo os ditos comfrades e pesuidores dos ditos bêes ou pellos a que ho conheçimento desto pertemcer çitados e ouuidos. dada em villa viçosa dous dias do mês dagosto El Rey ho mãdou pello doutor Joham teixeira viçe chamceller do seu comselho etc e pello doutor Johã deluas Joham Jorje a fez anno do nascimento de nosso Senhor Jhesu christo de mil iiijc lxxx.

Fonte - ANTT – Livro 1º da Beira, fls 95 vº

Igreja de São João de Martir-in-colo,
 também denominada São João de Longe,

 situada no Lar de S. José.

Carvalho Dias refere nas suas reflexões: "Do século XV podemos fixar a existência, que não a fundação, de outro hospital: o Hospital de São João de Longe que nada tem a ver com a Casa de Saúde, de vida efémera, aberta durante a peste que assolou a Covilhã no fim do século XVI, nem com a velha Igreja de Malta, da Ordem de São João do Hospital." Esta informação leva-nos a relacionar a comfraria de sam Joham de mante em collo  com este Hospital.

As Publicações do Blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/11/covilha-lista-dos-sentenciados-na.html 

Artigos sobre o mesmo tema, no nosso blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/07/covilha-instituicoes-primitivas-de.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/06/covilha-instituicoes-primitivas-de.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/05/covilha-instituicoes-primitivas-de.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Covilhã - Notícias Soltas X


Covilhã - A Casa da Câmara e o Pelourinho

A propósito do auto de 1613 de abertura dos alicerces para a nova Câmara, encontrámos várias reflexões de Luiz Fernando Carvalho Dias, relacionadas com o local de funcionamento da Câmara da Covilhã.

Em "Covilhã - Subsídios para o estudo da sua Heráldica de Domínio", Carvalho Dias informa-nos que "A pedra de Armas mais antiga que se conhece estava enxertada nos muros da antiga Câmara e datava de 1613, data da reedificação. Mas a pedra não era homogénea [...]
          [...] O edifício porém que as armas enobreciam sabemos ser parte de 1613, e outra parte dele, mais antigo, de 1518. Foi nesta última data que o Concelho se transferiu do alpendre de Santa Maria do Castelo para a beira da muralha, frente ao pelourinho." (1)
   
Eis a Inscrição de 1518: 

Inscrição da primeira Câmara de D. Manuel, na parede que subia do poço dos cavalos para o Arco do Pelourinho (da Covilhã):

Ho.LDO. António Corea. Cavaleiro / Da.Orde(m) de Xps (Cristo). Coregedor Desta Co/Marca Por El Rei Domanuel Nosso / Sor mãdou fazer Esta Obra Ano de 1518/

(Informação deixada por Carvalho Dias: Vidé. Na chancelaria de D. Manuel a nomeação para corregedor da Guarda do Lic. António Correa e dos encarregados das obras da Covilhã pelo mesmo Rei.) (2)

No espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias encontrámos este auto de 1613 de abertura de "os alliceses das obras que novamente se fazem na dita villa por provisão de Sua Magestade a saber Casa da Camera e audiencia e torre do Relogio e Cadeia":




Leitura do documento: auto que mandaram fazer o Licenciado João Roiz da Costa, Jujz de fora em esta notavel Villa de Covilham e seo termo por Sua Magestade e dioguo de serpa da sillva affonso botelho guerra vereadores em ella e pero falcão tavares precurador em a dita Camera,

anno do nascimento de nosso Senhor Jesu Christo de mill seiscentos e treze annos aos vinte e hoito dias do mes de Setembro do dito anno em a notavel villa de Covilham aas portas da villa que estão pera o pelourinho ahi foraõ juntos o Licenciado João Roiz da Costa juiz de fora com allcada por ell Rey nosso Senhor na dita villa e seu termo e dioguo de serpa da sillva e affonso botelho da Guerra vereadores e pero ffalcão tavares procurador da camera o presente anno nesta dita villa e por elles juiz e vereadores foi mandado abrir os alliceses das obras que novamente se fazem na dita villa por provisão de Sua Magestade a saber Casa da Camera e audiencia e torre do Relogio e Cadeia os quaes alliceses mandaram abrir pello mestre das ditas obras gonçallo Sanches para se fazerem as ditas obras conforme a obrigação e arrematação que estava feita e de tudo mandavam fazer este auto que todos assinaram e declaro que conforme a aRematação que lhe foram feitas ao dito Gonçalo Sanches mestre das ditas obras e conforme as ditas meças e pello dito Juiz e Vereadores e procurador da camera foi lançado a primeira pedra para se fazerem as ditas obras de que eu escrivão dou fee de tudo passar na verdade.
       aa)  Botelho   Costa   tavares    Serpa

e declaro que stavão presentes os misteres da dita villa francisco allez domingos lourenço e luis dallmeida tabelião do judicial e francisco fernandes polo fellipe guomes tesoureiro da dita villa e allvaro gaspar e jorge ferreira e bertollameo de gois que todos foram testemunhas que assinaram e eu dioguo sardinha escrevão da Camera o escrevi.

aa) djoguo sardinha        Bertollameo de gois     jorge fr.ª   Francisco Frz    Francisco Allz     Domingos Lçº

Câmara Filipina
******

Vejamos o que dizem os monografistas sobre este assunto:

Monografia de Padre Manuel Cabral de Pina

"Tem mais esta vila os Paços da Câmara, todos de cantaria lavrada, e são de muita grandeza e teem janelas de sacada, com grades de ferro, e fazem notável vista para o Terreiro do Pelourinho. Sobre eles se levanta uma alta torre, também de cantaria lavrada, na qual há dois sinos, um é do relógio da vila e o outro é de tanger à ronda e funções da Camara, os quais sinos, pela sua qualidade, são dos mais excelentes da província." (3) 

Memória das Fábricas da Covilhã

Tem a vila 954 fogos; 3.481 pessoas; excelentes edifícios, e casas particulares: de todos o mais majestoso é o da Câmara e cadeia, que formada nos muros sobre a porta da vila, que é de abóbada, tem 9 janelas rasgadas, dominando um grande terreiro; no meio está uma muito grande pedra lavrada em oitavo e no cimo faz a figura duma roca; no meio do edifício estão esculpidas as armas reais; e também no mesmo sitio foi fabricada a torre do relógio, com este para Nascente, e outro sino para o Norte, que serve de tocar à Câmara, audiência, ronda e mais funções. Também no dito terreiro se faz Praça quotidiana de todos os géneros de alimento e mercado ou feira no terceiro domingo de cada mês; e no cimo junto às escadas tem um chafariz com água em abundância por duas bicas. (4) 


 Memória da Covilhã de João Macedo Pereira Forjaz

 A casa da Câmara é no sítio do pelourinho, é boa e está bem asseada, e além dos vereadores e oficiais do costume tem por provisão 24 homens do povo, que assistem às principais deliberações e funções que ali se fazem. Os seus rendimentos são poucos e, por isso, se tem valido da provisão para arrematar as tabernas, com que tem feito calçadas e outras obras úteis.
      O livro das posturas da mesma Câmara não contém cousa que se não encontre em todas as do Reino e portanto, me parecem desnecessárias as suas análises.
      A cadeia, fica unida à Casa da Câmara e sendo uma das melhores da comarca (23) não deixa de ter as incomodidades que padecem as de Portugal, muito principalmente quando os Magistrados não velam sobre os sagrados direitos da humanidade, o que sucede de ordinário, verificando-se também na mesma a fiel e enérgica pintura, que Filangieri faz das cadeias do seu país.


23) Consta da provisão que se acha no arquivo da Camara da dita vila, mandada passar em Moura pelo Infante D. Luis, em 9 de Outubro de 1536, passarem os prezos do Castelo donde estavam para a Cadeia nova; e esta provisão se passou a requerimento de D. Diogo de Castro, alcaide-mór da sobredita vila, cuja alcaidaria se conserva ainda hoje na Casa do visconde de Barbacena, seu descendente; e por isso a cadeia parece ser outra, porque a que hoje existe, se lhe abriram os alicerces, assim como para a casa da Camara, e torre do relógio, em 1613, por provisão de D. Filipe 2º. (5)

******
Apresentamos ainda um documento dos finais do século XV, autorizando o alcaide-mor, D. Rodrigo de Castro a "fazer hûuas casas no muro da villa de covilhãa comtra o arevalde homde esta a judaria ":

A Câmara Filipina, a Fonte de três Bicas, a "Casa da Hera"

Dom Rodrigo de Castro e a "Casa da Hera" 
(No muro da vila)  

   " A dom Rodrigo de crasto liçença pera fazer hûuas casas no muro da villa de covilhãa comtra o arevalde homde esta a judaria 

Dom Joham e etc. A quamtos esta carta virem fazemos saber que dom Rodrigo de crasto do nosso Conselho e alcayde moor pello duque de beja nosso muyto prezado e amado primo da villa e fortelleza da villa de covilhãa nos dise que no muro da dita villa comtra o arevalde homde esta a judaria estavam damtigamente fumdadas huuas casas as quaaes estavam daneficadas e desejamdo elle de ter booas casas e por elle hj achar lugar desposto pera ellas as começou e as queria ali fazer e que por quamto lhe era dito que as nom poderia fazer no dito muro sem nossa liçemça nos pedia por mercee que lhos outorgassemos e visto per o dito duque nos pedir que lha dessemos praz nos darmos como de feito per esta damos licemça e lugar ao dito dom Rodrigo que elle possa fazer e acabar as ditas casas no muro da dita villa homde as tem começadas. E em testemunho dello e por sua guarda lhe mandamos dar esta carta assynada per nos e assellada do nosso sello pemdemte dada em a nossa cidade devora a doze dias do mes de mayo pero de torres a ffez anno do nacimento de nosso Senhor Jhesu christo de mjll e quatroçemtos e novemta."     (6)

Na "Casa da Hera" hospedava-se D. Luís, Senhor da Covilhã, quando vinha em visita à Vila. 


******

A Janela manuelina, da "Casa da Hera", que andou desaparecida durante muitos anos.
O investigador Carvalho Dias, numa conferência sobre Pedro Álvares Cabral, diz-nos: 

[...] "É natural que Pedro Álvares Cabral tivesse visitado várias vezes as propriedades paternas na Covilhã e no seu concelho e se tivesse reunido com o irmão e os sobrinhos no velho Palácio de D. Rodrigo de Castro, heróico Governador de Tânger, encostado à muralha da Covilhã, e olhado da janela manuelina que tantos de nós ainda conhecemos, o Pelourinho, a fértil várzea do Zêzere, a Judiaria da Covilhã donde saíram os astrólogos Diogo Mendes Vizinho, os irmãos Faleiros e os Ximenez, estes origem de banqueiros europeus e de aristocratas romanos da Renascença; as oficinas primitivas dos teares covilhanenses e os tintes e pisões que então começavam a aflorar nas margens da ribeira de Goldra e, ainda lá longe, olhasse a silhueta aristocrática do velho Paço de Belmonte e suas futuras propriedades do Sarzedo. " [...] (7)


******

Algumas imagens da Praça do Município:






Praça do Município, hoje

A Praça do Município ou do Pelourinho, assim chamada porque nela estava a "Casa da Câmara" e um pelourinho desaparecido em 1863. Aqui havia um fontanário de três bicas, removido aquando das obras do século XX, mercado e festas ao longo do ano, farmácias, igrejas, teatro, coreto, cafés, pastelarias e casas de habitação. Em 1958 esta praça sofreu várias transformações, tendo desaparecido a câmara filipina, substituída pelos actuais Paços do Concelho. Em 2002 verificaram-se novas modificações com a inauguração do silo-auto.

Notas: - 1)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/05/covilha-subsidios-para-o-estudo-da-sua.html
2) http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/05/covilha-o-4-aniversario-do-nosso-blogue.html 
3)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/10/covilha-memoralistas-ou-monografistas-xi.html 
4)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/01/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
5)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2013/11/covilha-memoralistas-ou-monografistas-iv.html 
6)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2013/04/covilha-alcaidaria-iii.html
7)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/10/covilha-pedro-alvares-cabral-iv.html
As Publicações do Blogue:
No nosso blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/11/covilha-noticias-soltas-ix.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/11/covilha-noticias-soltas-viii.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/10/covilha-noticias-soltas-vii.htm
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/09/covilha-noticias-soltas-vi.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/07/noticias-soltas-v_68.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/06/covilha-noticias-soltas-iv.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/04/covilha-noticias-soltas-iii.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/03/covilha-noticias-soltas-ii.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/12/covilha-noticias-soltas.html

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Covilhã - Notícias Soltas IX

   Belmonte está a celebrar os 601 anos da Conquista de Ceuta com uma Exposição “Ceuta Ontem. Ceuta Hoje. 600 anos de Encontro de Culturas entre Atlântico e Mediterrâneo”, de 13 de Novembro a 17 de Maio de 2017. É uma co-produção entre o Museu dos Descobrimentos e Parque Temático do Porto, a Cidade Autónoma de Ceuta e o Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Pretende lembrar a Conquista de Ceuta, em 1415, no reinado de D. João I, na qual participaram os Infantes e muitos nobres. Entre os Infantes estava obviamente o Infante D. Henrique, 1º Senhor da Covilhã e dentre os milhares de nobres, o bisavô de Pedro Álvares Cabral - Luiz Álvares Cabral.
Nesta Exposição está patente a "Crónica da Tomada da Cidade de Ceuta por Dom João I", de Gomes Eanes de Zurara:

Crónica da Tomada da Cidade de Ceuta (ANTT)
Recordemos um passo da obra do cronista-mor Gomes Eanes de Zurara:

"(...) Já passavam de sete horas e meia depois do meio dia, quando a cidade foi de todo livre dos mouros. (...) As outras Companhias [de soldados portugueses], não tinham maior cuidado doutra coisa que de apanharem o esbulho. (...) Muitos que se acercaram primeiramente naquelas lojas dos mercadores que estavam na rua direita, assim como entraram pelas portas sem nenhuma temperança nem resguardo, davam com suas facas nos sacos das especiarias, e esfarrapavam-nos todos, de forma que tudo lançavam pelo chão. E bem era para haver dor do estrago, que ali foi feito naquele dia. Que as especiarias eram muitas de grosso valor. E as ruas não menos jaziam cheias delas (...) as quais depois que foram calcadas pelos pés da multidão das gentes que por cima delas passavam, e de si com o fervor do sol que era grande, davam depois de si muy grande odor. (...)"

O Infante D. Henrique em Ceuta
Painel de Azulejos de Jorge Colaço, Estação de S. Bento, Porto

Vejamos o que nos diz Luiz Fernando Carvalho Dias sobre a Família Cabral, inclusivé o guerreiro de Ceuta Luiz Álvares Cabral  e Belmonte:

"... Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, filho de Fernão Cabral, como refere, entre outros, o ilustre Barros na 1ª Década da Índia, levou consigo, dos seus maiores, à bela terra da Vera Cruz a fidelidade da sua Raça, personificada na Grão liberdade dos alcaides mores do Castelo de Belmonte, na isenção de prestar menagem.
            Singular privilégio esse, de nossos Reis confiarem aos Cabrais, sem garantia, uma das mais importantes fortalezas da Beira, chave defensiva do Vale do Zêzere e bastião duma linha de outras nobres fortalezas, carregadas de história, que desciam da Guarda por Sortelha à Covilhã e do Sabugal a Penamacor, Penha Garcia, Salvaterra e Segura, e do Rosmaninhal até ao Tejo!
            Singular privilégio, repito, numa época de tradição feudal onde os laços de vassalagem eram mais fortes do que os laços da pátria e os grandes senhores se permitiam o direito de eleger suserano mesmo que fosse o estranho Rei.
            A menagem, acto jurídico garantido pela honra, era o laço a unir o suserano ao vassalo.
            Isentar um súbdito de prestar menagem poderia classificar-se de acto de confiança pessoal e normal, mas dispensar toda uma geração de o fazer pressupunha já o reconhecimento público de fortes laços de solidariedade familiar assentes num conceito social de honra, que não admitia quebra.
            Em Portugal só a Casa de Marialva gozava de idêntico privilégio e exclusivo aos castelos de Numão e de Penedono.
            Tratava-se assim de um privilégio familiar e privilégio tão excelente cuja génese merece honrosa evocação nos factos centenários de quem o honrou nas horas altas e sobretudo nas horas aziagas. Sem documento coevo donde conste a isenção, ao contrário do que sucede com os Marialvas cuja carta régia de concessão ainda hoje existe, presumimos que este privilégio tenha advindo aos Cabrais da fidelidade de Álvaro Gil, alcaide - primeiro da Covilhã e depois da Guarda, no tempo de D. Fernando e depois no interregno - honrado escudeiro da Crónica de Fernão Lopes que, contra todos os fidalgos da cidade aliciados pelo bispo D. Afonso Correia, se recusou a entregar a fortaleza a D. João de Castela, marido da princesa Beatriz e genro da “ flor d’ altura “.
            Sabemos, contudo, ter sido Fernão Cabral, pai de Pedro Álvares, o primeiro Cabral a invocá-lo. Este, desde 1449 presidia à alcaidaria-mor de Belmonte e o Rei, quando lhe a doou de juro e herdade em 1464, autenticou nessa fonte não só serviços dele, mas os de seu pai e de seu avô, o que permite concluir que tal privilégio viesse na herança de Álvaro Gil e se instituísse depois em Belmonte com o bisavô de Pedro Álvares, ou seja com Luiz Álvares Cabral.
            Como serviram os Cabrais o princípio da fidelidade e quais as ligações desta nobre estirpe com a província da Beira? Eis o escopo do meu estudo, atentos os laços que ligam o Descobridor do Brasil à pequena pátria de todos nós, a Província da Beira, que Gil Vicente, mais tarde escolheria para representar a fama lusitana.
            Álvaro Gil Cabral, da família do Bispo da Guarda D. Gil, morreu em Coimbra em 1385, a seguir às Cortes de aclamação de D. João I, nas vésperas de Aljubarrota. Os seus bens transferiram-se logo para seu filho Luiz Álvares em Outubro desse ano, como consta da carta régia que confirmou tal doação. Mas de tais bens não constava a alcaidaria de Belmonte nem a da Guarda.
            Luiz Álvares só veio a radicar-se em Belmonte cerca de 1401 (Era de 1439) para receber a administração do morgadio de Maria Gil, constituído por bens na Covilhã e em Belmonte, anteriormente doados por El Rei D. Pedro ao referido D. Gil, mas só foi alcaide de Belmonte depois de ter cessado, por escambo, o domínio da mitra de Coimbra naquela vila e ainda o senhorio de Martim Vasques da Cunha ao ausentar-se para Castela em fins do século XIV.
            Luiz Álvares Cabral esteve na Tomada de Ceuta em 1415, como assevera Zurara; foi vedor do Infante D. Henrique e possuiu ainda Valhelhas, Manteigas, Vila Chã de Tavares e alguns bens em Azurara da Beira. Consta de um documento, ainda    inédito do arquivo da Câmara de Manteigas, que tinha casas em Belmonte  antes de ser alcaide-mor do Castelo.
            Faleceu entre 11 de Agosto de 1419 e 31 de Julho de 1421.
            Está documentada a sua residência em Belmonte em 1405, 1408, 1411 e 1419..." (1)

1)http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/08/covilha-pedro-alvares-cabral-e-belmonte.html

As Publicações do Blogue:
Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/11/covilha-lista-dos-sentenciados-na.html



No nosso blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/11/covilha-noticias-soltas-viii.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/10/covilha-noticias-soltas-vii.htm
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/09/covilha-noticias-soltas-vi.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/07/noticias-soltas-v_68.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/06/covilha-noticias-soltas-iv.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/04/covilha-noticias-soltas-iii.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/03/covilha-noticias-soltas-ii.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/12/covilha-noticias-soltas.html

domingo, 6 de novembro de 2016

Covilhã - Notícias Soltas VIII


    Quando procurávamos informações sobre Eduardo Malta no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias, encontrámos algumas notas acerca de um antepassado do retratista, o covilhanense Manuel Morais da Silva Ramos, mais conhecido por Morais do Convento ou Morais da Covilhã:
“Escultor, pintor, santeiro, abridor de cunhos e gravador do século XIX (1806-1872). Cursou a aula de Desenho da Casa Pia e depois a Aula Pública de Desenho, onde foi discípulo de Faustino José Rodrigues, que também exercia as funções de professor de Escultura. Foi soldado no cerco do Porto, na sua mocidade, e também exerceu a profissão de ourives. Esteve como pintor e escultor na Fábrica da Vista Alegre. Trabalhou no Porto como gravador. Distinguiu-se também como medalhista. Mas notabilizou-se sobretudo na escultura em madeira deixando algumas imagens de real mérito como “Cristo” (Igreja de S. Francisco, Covilhã) e “Senhor da Agonia” (Fundão) além de duas virgens, uma delas com a peanha belamente historiada. Regressado à Covilhã este homem dos sete oficiais ali comprou um convento, onde foi morar e onde levou uma vida misteriosa que se tornou fábula na boca do povo. Era antepassado do grande pintor Eduardo Malta.” (1)

Convento de Santo António
**********************

Embora conhecido e muito antigo (1873) este texto do jornalista, fundador e director do Diário de Notícias Eduardo Coelho “Passeios na Provincia I – De Lisboa a Vizeu – Até Covilhã Á Marinha Grande”, considerámos importante recordá-lo:
“V - … Numa das ramificações da Estrela, um dos braços que se estende a amparar do lado do sul a cidade industrial, existe ainda hoje no alto do monte, no sítio mais pitoresco daqueles arredores, um convento da invocação de Stº. António, cujos frades eram operarios tecelões. Tinham ao lado do convento uma fabrica de estamenha para habitos, com o privilegio exclusivo para aquele fabrico.
Actualmente habita o convento por o ter comprado à fazenda, o sr. Manuel Moraes da Silva Ramos, conhecido pelo Moraes da Covilhã. Já que subimos ao monte e entrámos no velho eremiterio não desçamos sem dizer duas palavras a seu respeito, que as merece.
O convento é da arquitectura denominada jesuítica, estilo pesado, triste, desornado, sem a mistica poesia das arquitecturas predominantes da edade media. Subindo as escadas e parando na pequena cerca da entrada, lançando o olhar em redor recebe-se a agradável impressão que produz à vista o quadro do Vale da Covilhã. O vale parece encerrado num círculo de montanhas. Ao norte estão os montes que abrigam a cidade da Guarda, de que se veem ao longe indistintamente alguns edificios; ao sul há agrupação de serras e diversos povoados; a leste fica-nos, no primeiro plano a serra de Caria, e mais atraz a de Alpedrinha; a oeste corre a da Estrela. Veem-se perto diversos povos que tambem fabricam lãs e as vem vender à Covilhã, taes como Teixoso, Belmonte, Tortuzendo, Fundão, onde o edifício da antiga fábrica real serve hoje de paço municipal, e outras povoações tais como Alcaria, Peraboa, Boidobra, Ferro, Dominguiso, Peso, Alcaide, ect.
A igreja do convento é a mais asseada e decente da Covilhã, onde os principaes templos se acham num estado desgraçado, e em absoluto desacordo com o fervor religioso que dizem reinar na terra. Esta egreja, porém, está mal vista e não se diz nela missa desde que houve uma pendencia com o seu proprietário por causa de tres imagens de S. Francisco, Santo Antonio e Nossa Senhora que em certa noite desertaram dos seus altares noutros templos e foram em passeio misteriosos até à porta do Convento de Santo Antonio, onde apareceram pela manhã embuçados em chales – mantas, dando-lhes o Moraes culto nos seus altares.
Nas celas do convento tem o proprietario as suas oficinas de gravura e cunhagem. Aquele edifício é habitação de dois verdadeiros artistas, o Sr. Moraes e seu filho.
Mas quem é o sr. Moraes? Vejamo-lo. A doença entrevou-o. Está deitado em cama asseada, numa pequena cela, talvez mais penitenciada que o cenobita que um século antes ali habitara. Na cabeça encalvecida, onde alvejam escassas cãs, formando um círculo em tom de aureola, no esgaseado do olhar, nos raios de sangue que lhe injectam e envermelhecem as alvas ou corneas opacas, no amarelicimento da tez, no cavado das faces e no aspecto dolente e triste da fisionomia está o resumo de uma vida agitada e cheia de tribulações. Nos quadros a oleo, nas belas e delicadas estatuetas em buxo, cheias de lavores microscopicos cavados a buril, nas medalhas cunhadas em ouro, e nas bandejas de prata lavradas, tudo obra de suas mãos e que se veem nas paredes e sobre as mesas, lê a alma do visitante: aqui está um artista.
Este homem que foi aluno da casa pia de Lisboa, soldado no cerco do Porto, depois serralheiro, gravador e abridor de cunhos na mesma cidade, este homem que lá quizeram fazer moedeiro falso e que el-rei de Itália nomeou, por distinção ao mérito, cavaleiro da Ordem de S. Maurício e S. Lázaro, é efctivamente um artista de raro merecimento, que podia ter sido ultimamente aproveitado e que a adversidade perseguiu e aniquilou. Um dia no Porto disseram que ele era autor dos cunhos de umas notas falsas. A habilidade de Moraes dava ainda para obras mais difíceis. A policia não rejeitou a ideia. Perseguiram-no, fizeram-lhe crueis montarias, por fim prenderam-no. O carcere atrofiou-o. Ave que tem asas para vôos de aguia esmorece e definha se a metem numa gaiola. Moraes está velho e acabado. Eu não sei se ele fez cunhos para notas falsas ou se cunhou moeda. Não me lembrei de lho perguntar. O que sei é que a voz publica tem dito muitas vezes que há moedeiros broncos, ignorantes mas ricos, alguns feitos barões, viscondes e condes, e que o Moraes coitado! é inteligente e instruído e está pouco menos que pobre. (x)
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
x) Nos últimos dias de Setembro anunciaram-me da Covilhã que o distinto artista havia morrido e que o seu corpo fora lançado à terra numa cova raza do cemitério da cidade. Ele bem sentia que a morte o estava aguardando, quando me disse com tristeza no seu leito de dor: - Adeus meu amigo: parece-me que o Moraes não torna a pegar no buril.” (2)

**********************

Ao longe o Convento de Santo António , hoje

   Terá tido uma vida atribulada, segundo alguns, rocambolesca mesmo. Teve várias questões com a Polícia, quer por causa da cunhagem de moedas, quer por querer reaver para o Convento imagens que de lá saíram aquando da execução da legislação de Mouzinho da Silveira.
    Conta-se que embora esmoler, emprestava dinheiro a juros. Como a sua vida está envolvida em histórias e lendas, dizia-se com graça, que o Morais entregava às pessoas as moedas ainda quentes, acabadadas de aquecer no forno, dizendo-lhes, no entanto, que pouco antes as tinha terminado de fabricar, de cunhar.
Fiquemos antes, como Eduardo Coelho, com a ideia de que ele foi um verdadeiro artista, tendo até feito um busto para a sua campa no cemitério da Covilhã.

Fontes 1) In Fernando Pamplona, “Um século de Pintura e escultura em Portugal, (?) Vol.3º, pag. 118
Ou “Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses ou que trabalharam em Portugal”
2) Coelho, Eduardo - “Passeios na Provincia I – De Lisboa a Vizeu – Até Covilhã Á Marinha Grande”, Lisboa, Tipographia Universal, 1873, fls 90 a 93

As Publicações do Blogue:

Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/11/covilha-lista-dos-sentenciados-na.html



No nosso blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/10/covilha-noticias-soltas-vii.htm
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/09/covilha-noticias-soltas-vi.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/07/noticias-soltas-v_68.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/06/covilha-noticias-soltas-iv.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/04/covilha-noticias-soltas-iii.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/03/covilha-noticias-soltas-ii.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/12/covilha-noticias-soltas.html

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Covilhã - Para a História do Bispado da Covilhã III

A nossa publicação procura apresentar documentos do século XVI e XVII encontrados no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias, que defendem o desmembramento da diocese da Guarda e da erecção do bispado da Covilhã.

A diocese da Guarda foi fundada na actual Idanha-a-Velha e a sua sede foi transferida para a Guarda, depois de D. Sancho I fundar a cidade, em 1199.
No século XVI tinha uma área muito extensa e abrangia povoações de vários distritos, como podemos constatar na descrição Livro das Comendas do Bispado da Guarda e no mapa com que procurámos ilustrar a nossa publicação. Tinha uma área tão grande que em 1549, no reinado de D. João III, Paulo III fundou a diocese de Portalegre.

    Na bula da criação da diocese, Pro Excellenti, explicita-se:
Sucede que a diocese da Guarda é muito extensa e que há nela muitas povoações e lugares afastadíssimos da cidade e da igreja da Guarda, e alguns deles montanhosos e frios e de dificílimo acesso, sobretudo no tempo de inverno, por causa dos muitos rios e porque o Tejo corre através desta diocese; e por isso o Bispo da Guarda não pode visitar, como seria de sua obrigação, toda a sua diocese, nem exercer todos os anos os outros deveres pontificais, nem conhecer pessoalmente, como convém, os seus diocesanos, resultando daí certa confusão na administração eclesiástica e descontentamento e perigo para as almas“. 

Pela mesma bula foram separadas e desmembradas da diocese da Guarda as povoações de Portalegre, Castelo de Vide, Marvão, Alpalhão, Crato, Alegrete, Tolosa, Nisa, Vila-Flor, Póvoa das Meadas, Amieira, Belver, na margem direita do Tejo, Gavião, Montalvão, Alter do Chão, concelho de Margem e Longomel, no Alentejo; e da diocese de Évora a povoação de Arronches e as vilas de Arês e Açumar, com os seus termos, territórios, vilas e lugares, etc.

Na mesma altura pensava-se na erecção de outra diocese, desmembrada da Guarda também, a Covilhã. Diocese grande, bem povoada e de boas rendas. (1)


Algumas povoações do bispado da Guarda: 1) Trinta; 2)Manteigas; 3)Valhelhas; 4)Belmonte; 5)Touro; 6)Marmeleiro; 7)Sortelha;
8)SAbugal; 9)Meimoa; 10)S. Vicente; 11)Janeiro; 12)Penha Garcia; 13)Salvaterra; 14)Segura; 15)Rosmaninhal; 16)Idanha-a-Velha;
 17)Idanha-a-Nova; 18)Lardosa; 19)Alcains; 2o)Castelo Novo; 21)Sarzedas; 22)Proença; 23)Amêndoa; 24)Vila de Rei; 25)V.V. de Ródão; 
26)Constância; 27) Sardoal; 28)Mação; 29)Abrantes; 30)Ponte de Sor



************************

Cabido deste bispado de Covilhã






Haverá neste cabido outras dignidades, prebendas, capelães e moços de coro assim e da maneira que fica decalarado no cabido de Viana (1) às 10 folhas. E terá a mesma renda que são 831.000 rs -



831.000


(1) - “Está muito incompleto o documento relativo ao Bispado de Viana do Castelo, que não foi possível completar por se perder a parte restante. Por aqui ficamos a saber que o Bispado de Viana do Castelo serviu de paradigma, na sua organização, ao da Covilhã e de Abrantes. Em virtude da perda deste documento ficamos sem informação sobre a composição do cabido, quanto a dignidade e prebendas, etc”, in Pe. António Brásio, in “Quatro Dioceses que não se Criaram“, Revista “Estudos, revista de cultura e formação católica, ano XIX, (fasc II), nº 204, Fevereiro de 1942.
As dioceses seriam de Viana do Castelo, Freixo (de Espada à Cinta), Covilhã e Abrantes)



a qual renda haverá por esta maneira seguinte







Renda do Cabido


Igreja de Santa Maria






A igreja de Santa Maria da vila de Covilhã que é da apresentação del Rei com as outras 18  que vão abaixo que são da mesma apresentação que rende oitenta mil rs.


80.000


A igreja de São bartolomeu da dita vila rende sessenta mil rs -
60.000
A igreja de São João de Monte em colo com sua anexa rende
trinta mil.

30.000
A igreja de São Vicente rende sete mil
  7.000
São Martinho da vila rende treze mil
 13.000
A igreja de Santiago da vila dez mil
 10.000
Santa Marinha da vila rende quinze mil
15.000
Estas todas na vila



Santa Maria de teixoso termo de Covilhã rende sessenta mil rs esta fica ao mestre escola e ao tesoureito da Guarda Em quantia de trinta mil rs com a igreja da capinha que vai diante em 35.000 e fica-lhe em 20.000 em pagamento dos 50000 de renda que tinham em Sobreira Formosa que se tomaram para o cabido de Abrantes, a saber a parte que o cabido da Guarda aqui tem 60.000

(à margem) - o que nesta duas igrejas fica ao mestre escola e tesoureiro a parte que nelas tem o cabido da Guarda e estes 60.000 são da parte do prior.



São João e Santana sua anexa, da Aldeia do Mato,  40.000 rs.

São Pedro do lugar de Orjais, 25.000 rs

Santa Maria de Alcongosta 30.000 rs

São Martinho do fundão 60.000 rs

Santa Maria de Peroviseu 15.000 rs

São pedro do souto da Casa 50.000 rs

Santa Maria do Tortozendo 50.000 rs

Santa Maria do Paúl 40.000 rs

Santa Maria de Aldeia Nova das Donas 20.000 rs

São João de Cambas 30.000 rs

Santa Maria de Ourondo dos Anjos 15.000 rs

Todas estas igrejas acima declaradas são da apresentação del Rei.



São Pedro da vila, rende 20.000 rs É da apresentação do cabido da Guarda

São Salvador da vila, da apresentação do Bispo, rende 13.000 rs

São Pablo da vila rende 12.000 rs. É da apresentação do bispo e do Papa.

Santo André rende 13.000 rs . É dádiva do Papa.

Santa Maria de Caria (é Câmara do Bispo da Guarda), rende 60.000 rs

Santa Maria de Valverde 8.000 rs. apresenta-a o cabido.

Santa Maria de Dornelas, da apresentação do Bispo da Guarda, rende 12.000 rs

São Pedro do lugar da Capinha, que é da apresentação de Alcobaça, 35.000 rs.
Nesta igreja tinha o cabido da Guarda a terça, que pertence ao Bispo, a qual fica agora ao Mestre Escola e tesoureiro da Guarda em refeição dos 50.000 rs que tinha de renda em Sobreira Formosa que ora ficam ao cabido de Abrantes e fica mais ao dito tesoureiro a terça da igreja do Teixoso na dita refeição, segundo atrás na dita igreja do Teixoso fica declarado.

Soma 803.000 rs.

Dos quais 803.000 rs que valem de renda as igrejas acima declaradas afora o que pertencia ao cabido da Guarda que adiante neste cabido irá declarado, se tirará 270.000 rs para os vigários destas 17 igrejas, a saber, 10.000 rs cada um e assim ficam para este cabido da Covilhã 533.000 rs.



E haverá mais o cabido da Covilhã, para comprimento (complemento) de sua renda que o cabido da Guarda ora tem na vila de Covilhã e seu termo que é a terça dos dízimos que pertenciam ao Bispo. A qual renda é esta que se ao diante segue:



Aldeia do mato rende 18.000 rs

Aldeia de Orjais 10.000 rs

Peroviseu 9.000 rs

A aldeia da Fatela 11.000 rs

A aldeia do Fundão 20.000 rs

A aldeia de Joane 35.000 rs

A aldeia de Verdelhos 6.000 rs

A aldeia de Peraboa 10.000 rs

A aldeia de Coamgosta (sic) 9.000 rs

A aldeia de Valverde 5.000 rs

A aldeia de Souto da Casa 15.000 rs

A aldeia de Tortozendo 12.000 rs

A aldeia de Alcaria com São João de Monte em colo. Sua anexa 12.000 rs

A aldeia do Telhado 10.000 rs

A aldeia de Silvares 8.000 rs

A aldeia de Ourondo 8.000 rs

A aldeia de Unhais 7.000 rs

A aldeia de Cambas 20.000 rs

A igreja de São Pedro 8.000 rs

A igreja de Santiago 8.000 rs

A aldeia do Salgueiro 6.000 rs

A igreja de São João do Hospital 4.000 rs

A igreja de São Bartolomeu 9.000 rs

A igreja de São Vicente 2.000 rs

A igreja de São Silvestre 8.000 rs

A igreja de São Miguel 200 rs

O Paúl 15.000 rs

Dornelas 6.000 rs

Casegas 8.000 rs

A aldeia de Janeiro 20.000 rs

Santa Maria de Covilhã 25.000 rs

Santa Marinha 7.000 rs

Santo André 6.000 rs

São Pablo (sic) 4.000 rs

São Martinho 1.500 rs

São Lourenço 1.000 rs

Santa Maria Madalena 6.000 rs

São Salvador 8.000 rs

Soma 377.700 rs



Além desta renda que o cabido da Guarda ora tem na Covilhã e seu termo que fica a este cabido de Covilhã Tinha mais cinquenta mil a saber 30.000 do Teixoso e 20.000 da Capinha que ficam ao mestre escola e ao tesoureiro da Guarda por outros cinquenta mil que tinham de renda na Sobreira Formosa como já fica declarado atrás no cabido da Guarda às 52 folhas.
E juntando estes 377.700 rs aos 533.000 atrás declarados, assim são ao todo 910.700 rs.
E tirando daqui os 831.000 rs que este cabido há-de haver para complemento da sua renda, assim sobejam 79.700 rs.
Os quais serão para a fábrica da Sé deste bispado de Covilhã.









Nota dos editores - 1) Para conferir dados populacionais veja: http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2012/03/covilha-os-forais-e-populacao-nos.html
Fontes - 1) Brásio, António, "Quatro Dioceses que não se criaram", Revista Estudos, Revista de Cultura e Formação Católica nº 204, 1942

Publicações sobre a História do Bispado da Covilhã no nosso blogue:

http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/04/covilha-para-historia-do-bispado-da.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/01/covilha-para-historia-do-bispado-da.html

As Publicações do Blogue: